Abel Camelo
Abel Camelo 31 de maio de 2017 às 21:54

O futuro próximo dos pagamentos…

A diretiva PSD2 (Payment Service Directive) do Parlamento Europeu exige que os bancos forneçam API (Application Program Interface) abertas, para o acesso a dados de contas bancárias e iniciar pagamentos até Janeiro de 2018.

Representará esta diretiva a tão anunciada morte dos bancos, adicionada à sua cada vez maior transformação digital? Em 1994, Bill Gates lançou como tema de futuro a necessidade de serviços bancários, mas não necessariamente de bancos. Será a PSD2 mais um prego no caixão do modelo tradicional dos bancos?  

 

Sucintamente, a PSD2 permitirá que os clientes dos bancos, particulares e empresas, possam recorrer a terceiras partes (prestadores de serviços) para a gestão das suas contas, ou seja, num futuro não muito distante (2018) poderemos, por exemplo, executar o pagamento da conta de eletricidade pela aplicação da Uber ou pelo Facebook. Isto obrigará os bancos a fornecer a estes potenciais novos provedores de serviços o acesso às contas dos clientes através de API abertas.

 

Esta nova regulamentação fomenta todo um novo espectro de atuação para as start-ups no espaço "fintech", onde estas irão integrar-se aos sistemas existentes no setor financeiro e não substituí-los, estimulando a criação de um ecossistema mais profícuo para o cliente bancário.

 

Qual o desafio da PSD2 para os bancos e o porquê de uma preocupação excessiva? A PSD2 irá exigir investimento ao setor financeiro, pois o cumprimento regulatório terá de ser assegurado. Resta saber como este setor poderá potenciar receitas e inverter uma potencial redução dos fluxos positivos.

 

O que muda então com a PSD2? A PSD2 procura normalizar, integrar e melhorar a eficiência dos pagamentos na União Europeia, e oferecer maior proteção ao consumidor. Estas alterações resultam na proibição de sobretaxas para pagamentos com cartões, na incorporação e explicitação sobre o uso de métodos de pagamento emergentes, nivelando (entre instituições financeiras e terceiros) o jogo para os prestadores de serviços. Na prática, os consumidores irão permitir às terceiras partes (exemplo: um retalhista) o acesso à utilização dos seus dados bancários, resultando num pagamento direto ao retalhista, sem intermediários. Igualmente, a PSD2 permitirá, por exemplo, àqueles que tenham múltiplas contas em múltiplas instituições bancárias, utilizar serviços integradores de todas essas contas, ou seja, através de uma aplicação de um prestador de serviços de informação de conta, disponibiliza todas as informações bancárias ao cliente, num único portal.

 

A ligação entre os prestadores de serviços e os bancos será ativada usando as API. Através deste uso, as organizações não financeiras podem entrar no mercado financeiro sem os fortes requisitos legais e de infraestrutura, que os bancos necessitam assegurar. Sendo necessário garantir requisitos de segurança que obrigarão os prestadores de serviços a estarem alinhados com as melhores práticas de autenticação e cumprimento de regras de segurança. Os bancos vão assim deixar de ser competitivos entre si, mas contra todos aqueles que oferecem "serviços financeiros", potenciando-se um ecossistema mais competitivo, abrangente e com maior criação de valor para o cliente. A meu ver, até ao momento as novas organizações não financeiras têm provado uma maior apetência para atender a estas exigências de forma mais inovadora e centrada no cliente, do que muitos dos bancos tradicionais.

 

A PSD2 irá mudar fundamentalmente a cadeia de valor dos pagamentos, promovendo modelos de negócios rentáveis e acelerando as expectativas dos clientes. Os bancos terão de repensar a sua arquitetura de TI e, com certeza, surgirão oportunidades comerciais que podem beneficiar os clientes finais e criar novos fluxos de receita. Os bancos devem, por isso, repensar os seus modelos de negócio e preparar-se para a transformação digital em curso e fomentada pela PSD2, podendo suportar só custos ou extrair valor desta nova abertura.

 

Manager da Infosistema

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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