Bruno Faria Lopes
Bruno Faria Lopes 02 de janeiro de 2017 às 10:45

O gelo que pisamos vai ficar mais fino

Para um país com uma dívida pública de 130% do PIB, uma dívida privada ainda maior, uma banca subcapitalizada e uma dependência total de factores que não controla há sempre um tema a marcar a agenda de qualquer ano: o acesso ao dinheiro. Em 2017 não vai ser diferente.

Os bancos, o financiamento da economia e o financiamento da República vão ser assuntos centrais, com ramificações para a política.

Vamos continuar a ouvir falar muito de banca. Logo em Janeiro, o Governo enfrenta uma decisão difícil no Novo Banco: se a proposta da Lone Star for o que o Banco de Portugal tiver para entregar ao Governo, António Costa terá de escolher entre vender mal (arriscando pagamentos do Estado mais à frente a um fundo abutre) ou não vender (com a certeza de mais instabilidade para a banca). Na estrita perspectiva de evitar custo político, não vender será a opção melhor. Mas uma nova resolução ou a liquidação do banco implicam, no mínimo, custo reputacional para o país e atrapalham a ida imperativa ao mercado por parte da Caixa Geral de Depósitos. (Por falar em Caixa: o plano de António Domingues pode dar à administração de Paulo Macedo o primeiro lucro anual no banco público desde 2010.) 

Mas haverá mais na banca. Não é só em Portugal que se estuda uma solução sistémica para os maus créditos - o tema cresce na Europa, onde vários bancos padecem da mesma maleita. Veja-se a superconferência que o 'think tank' Bruegel vai organizar em Bruxelas sobre o tema, à porta fechada, já em Fevereiro. Vamos, por isso, falar de 'bad bank' em 2017 - o tal que pode limpar a banca e pô-la a financiar mais a economia real; o tal que, por outro lado, é um potencial catalisador de insolvências de devedores problemáticos. A vontade do primeiro-ministro, que tem liderado o processo, pode bater nos obstáculos. É preciso ultrapassar a resistência dos bancos, dos partidos à esquerda e, o campo mais decisivo, de Bruxelas, com quem será preciso negociar a fundo uma solução longe de estar garantida.

O foco maior de preocupação está noutro lado: a dívida da República. Há muito material em 2017 para agitar mercados sempre prontos para serem agitados: eleições cruciais na Europa (Holanda, Itália, França e Alemanha), um presidente imprevisível nos Estados Unidos, a constatação de que há uma bolha no mercado de dívida. Com o Banco Central Europeu limitado nas compras de dívida portuguesa, fracos indicadores pós-resgate (crescimento modesto, dívida alta) e um arranjo político que inspira desconfiança à comunidade financeira, Portugal é candidato a pressão alta dos investidores em 2017. O IGCP tem ainda algumas cartas na manga e boa parte do ano pré-financiado, mas o país parte para o próximo ano já sob pressão (um spread alto face à Alemanha e uma taxa de juro a dez anos próxima de 4%). 

O maior foco de preocupação está na dívida da República. Há muito material em 2017 para agitar os mercados sempre prontos para serem agitados.

Se a pressão financeira não for demasiado alta, numa Europa a eleições e sem interesse em gerar fogos, o Governo aguentará mais um ano.

Num quadro com estas características, os equilíbrios na política dependem muito da evolução na frente financeira. A banca promete ser um ponto de tensão na "geringonça", mas é mais uma vez o financiamento da República que pode resultar num teste à solidez do arranjo que assenta numa "agenda de reposição de rendimentos". Se a pressão financeira não for demasiado alta, numa Europa a eleições e sem interesse em gerar fogos, o Governo aguentará mais um ano. Costa pode trocar mais rigor orçamental por políticas públicas do agrado da esquerda - como fez já em 2016 - para continuar a agarrar PCP e BE no Orçamento para 2018.

O turismo vai continuar em alta (há muitas listas para 2017 que põem Portugal no topo), há fundos europeus, o Presidente Marcelo seguirá a espalhar afectos e é possível que o Benfica ganhe o "tetra" (gostaria de falhar esta previsão). Mas as nossas condições de financiamento vão continuar a degradar-se e, mesmo que os populistas não vençam as eleições na Europa (uma previsão de risco), a sua força nas urnas pode travar depois de 2017 as soluções de partilha de riscos de que Portugal precisa. O gelo que pisamos pode não partir em 2017 - mas continuará a ficar cada vez mais fino.

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comentários mais recentes
Carlos Rodrigues 02.01.2017

Também se assim não fosse Portugal não interessava aos especuladores!

surpreso 02.01.2017

A "geringonça" irá de patins...

luis 02.01.2017

4 anos com a troika cá, 4 anos perdidos, 4 anos sem refoRmas do estado, 4 anos sem corrigir os problemas da banca, 4 anos sem resolver as ppp's. 4 Anos a carregar em cima da classe media trabalhadora com impostos. um quinto ano sem troika mas levar como os 4 anos perdidos.