Isabel Stilwell
Isabel Stilwell 15 de agosto de 2017 às 19:00

O gin é o novo Marcelo 

O Presidente da República pode ir de merecidas férias, porque o Gin — em copo de balão, claro! — concilia com igual ou maior eficácia os amantes e detratores da Geringonça. Suspeito que nem a Festa do Avante lhe escapará.

À chegada ao aeroporto, uma das minhas queridas primas irlandesas estendeu-me um saco do duty free, murmurando, cúmplice, "isto é só para si". Curiosa, espreitei imediatamente e, vislumbrando uma embalagem com um líquido cor-de-rosa, exclamei feliz: "Espuma para o banho, obrigada!" Só quando levantei os olhos lhe percebi o espanto. "É uma garrafa de gin", corrigiu, subitamente segura de que apesar de Lisboa andar nas bocas do mundo, pelo menos os locatários de Sintra mantinham-se numa triste ignorância do que estava a dar. E, no que me diz respeito, com carradas de razão.

 

Esclareça-se, antes de mais, que a garrafinha foi imediatamente para junto da banheira onde, ao lado do champô, das canetas e dos livros, espera que me dê um acesso de Winston Churchill. O primeiro-ministro bebia sempre o primeiro whisky do dia no banho, e jurava que o gin curava mais gente do que todos os médicos do império britânico juntos.

 

Mas o que importa para o caso  é que o generoso presente abriu-me os olhos para o mundo. Mesmo morando nos arrabaldes já tinha percebido que os copos de balão eram um adereço omnipresente em telenovelas (a moça de coração estilhaçado pelo desgosto de amor afoga as mágoas num balão de vinho tinto, frente a uma lareira crepitante), varandas de vizinhos (o casalinho encosta-se à balaustrada, balouçando os copos que ameaçam estilhaçar-se na cabeça dos transeuntes) e, obviamente, não se dispensam nos jantares de amigos que se prezem. Sabia, também, porque vi com os meus próprios olhos, que estes novos entendidos chocalham o vinho e, bochechando, comentam os travos cujos nomes disfarçadamente espreitaram no rótulo (qual cábula), emborcando garrafa sobre garrafa, sob o olhar condescendente de namoradas ou esposas, que como acham que agora aquilo é fino toleram animadamente que os tipos se arrastem aos tombos e ressonem a noite inteira.

 

O que verdadeiramente desconhecia era que o patriótico amor ao vinho inspirado nas séries da Fox fora conglomerado à paixão pelo gin, que colonizara os mesmos copos de balão, agora exibidos com muito gelo e coisinhas a boiar, variantes exóticas das pevides e dos tremoços, suspeito eu. Uma vez de olhos abertos, rapidamente descobri que o gin é, na prática, o Marcelo Rebelo de Sousa das bebidas alcoólicas, promovendo afetos e conciliando os maiores dos inimigos. Como se não bastasse a uniformização social que a barba já lhes conferia - tornando impossível distinguir um turista de manga à cava, de um estivador, ou de um beto de Cascais -, unem-se neste Verão de 2017 de balão na mão em redor de temas fraturantes, das cativações ao pagamento da dívida, sem que se oiça sequer a palavra "geringonça". Até as discussões do futebol passaram para segundo plano. Adeptos do Benfica, Porto e Sporting discutem agora Bombay, Hendricks e Tanqueray. Desde que corra gin, o país está em paz.

 

Não me acusem de delirar, porque a Marketest confirma as minhas suspeitas: em 2016, beberam gin mais de um milhão de portugueses acima dos 18 anos e a viver no continente. Confirma-se também a minha verificação empírica de que é entre os mais jovens (dos 18 aos 44 anos), mais eles, mas também elas, que se regista um maior consumo, "com especial destaque para os indivíduos entre os 25 e os 34 anos, em que a taxa de penetração desta bebida é de 22%".

 

Mas a minha investigação prossegue, comprometendo-me desde já a deslocar-me à Festa do Avante, para confirmar a suspeita de que, até ali, já ninguém bebe vodka.

 

Jornalista

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico 

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