Adolfo Mesquita Nunes
Adolfo Mesquita Nunes 10 de abril de 2017 às 20:40

O Governo menos reformista de que há memória 

Este é o Governo constitucional menos reformista de que há memória, e esse legado, sobretudo esse, é o mais problemático para uma economia que compete com dezenas e dezenas de economias mais competitivas do que a nossa. 

Não tinha de ser assim.

 

É certo que, na oposição, o PS tem uma só estratégia: impedir qualquer outro de governar, bloqueando, alimentando contestação social, encostando-se à esquerda da esquerda. Esse é o PS na oposição, firme na convicção de que só há um partido que pode fazer as coisas, o PS e mais nenhum.

 

Mas, no Governo, o PS é, por tradição, um partido reformista. Na verdade, quando governa, o PS não tem problema em decidir em sentido contrário ao seu discurso na oposição, com pragmatismo. Na hora de privatizar, e nenhum partido em Portugal privatizou tanto quanto o PS, a Constituição já não se invoca, o Estado já não está em risco e o interesse nacional está salvaguardado. Na hora de liberalizar, e o PS liberalizou muita coisa, o mercado já funciona, a iniciativa privada tem de ser respeitada, o Estado não pode estar em tudo.

 

Sendo uma alternância de coerência discutível, ela tem garantido uma certa, ainda que mitigada, continuada veia reformista, como que assegurando reformismo à esquerda e, quando esta tem maioria, à direita; e tem favorecido o posicionamento do PS, na medida em que consolida a sua imagem de legítimo herdeiro do poder: quantas vezes ouvimos dizer que há reformas que só o PS pode fazer?

 

Por que razão há reformas que só podem ser feitas por um partido, quando aquilo que interessa é o seu conteúdo? Precisamente porque o PS dificulta muito a vida, política, social, cultural e mediaticamente, a qualquer reforma que não seja ele a aprovar, mesmo que com ela concorde, mesmo que a ela adira quando chegar ao governo. O mesmo não sucede tanto com o PSD e o CDS, que têm mais dificuldade em criar dificuldades nesse âmbito, o que não significa que não façam política na incoerência.

 

Uma mesma medida aprovada pelo PS tem a vantagem de se presumir justa, social, de esquerda, aceitável. Não é por acaso que há muito empresariado a preferir reformas aprovadas pelos socialistas, que assim asseguram um atestado de legitimidade que à direita, por causa da estratégia socialista, parece sempre faltar.

 

Aliás, o discurso do atual Governo sobre a paz social procura reforçar essa ideia: só o PS pode, consegue, reformar, governar, sem o barulho dos sindicatos, a rua ocupada pelos sindicatos, as greves organizadas pelos sindicatos. Esta estratégia tem assim consolidado o PS como o partido mais conveniente do regime: central, legitimado, com o PS é sempre mais fácil, mais calmo, menos ruidoso.

 

Sucede que, pela primeira vez na sua história, o PS, amarrado à esquerda por opção e convicção, adotou no Governo a mesma desconfiança face à mudança, faces aos problemas, que ostentava na oposição, obrigando o país a interromper impulsos reformistas. Não se trata só de voltar para trás, trata-se mesmo de avançar muito pouco em qualquer área que implique um mínimo de contestação, resistência.

 

Do ponto de vista das reformas, o país parou. O que equivale a dizer que do ponto de vista da resposta aos problemas estruturais da nossa economia, o país parou. Os outros avançam e nós estamos parados. E esse é o mais preocupante legado deste Governo, o de deixar às novas gerações um país menos preparado, menos apto a vencer num mundo global, pronto a ser ainda mais ultrapassado, entretido a festejar medidas inconsequentes ou sem futuro.

 

Temos o Governo constitucional menos reformista de que há memória e isso pagar-se-á caro.

 

Advogado

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico 

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comentários mais recentes
Rado Há 1 semana

Desta vez, Adolfo Mesquita desiludiu. Em geral, deveria tentar ser mais onjectivo. Este jornal não fala para um comício.

SALAZAR Há 1 semana

SIM, PORQUE NO TEU GOVERNO REFORMASTE MUITO. PARA PIOR. SÓ BATESTE NOS POBRES. VAI DAR BANHO AO CÃO. SE NÃO HOUVESSE UNIVERSIDADES PRIVADAS CORRUPTAS COMO A CATÓLICA NEM O CURSO DE DIREITO TINHAS. É ESTA CLASSE PULHÍTICA MEDÍOCRE QUE DOMINA ESTE PAÍS DE GANGSTERS.

Anónimo Há 1 semana

Não me recordo de ver num texto curto como este tanta contradição do seu próprio autor. Há apenas um desígnio nesta narrativa: ofuscar os resultados já alcançados tanto no plano económico como social, reconhecido na UE e, também, como ontem se manifestava honestamente o Patriarca de Lisboa.

Anónimo Há 1 semana

As vossas reformas já nós as conhecemos. Sempre a verter para o bolso dos mesmos canalhas.
Vade retro !!!