Fernando  Sobral
Fernando Sobral 06 de Dezembro de 2016 às 00:01

O grande jogo do petróleo

O acordo sobre os cortes na produção petrolífera, decididos pela OPEP, abrem espaço para um novo jogo de alianças políticas e económicas no Médio Oriente. 

O petróleo é, desde que se tornou central nas economias mundiais, sinónimo de grandes jogos. Mas poucos terão sido mais complicados e imprevisíveis do que este que terminou com um corte na produção por parte dos países da OPEP. Não foi uma decisão fácil. A todos agrada a ideia: aumentar o preço de venda que, nos valores verificados até há dias, vinha a corroer as economias de muitos países exportadores. No centro das decisões esteve, para lá da delegação da Arábia Saudita em Viena, o próprio príncipe Mohammad bin Salman al-Saud, um dos homens-fortes de Riade. Os problemas económicos do reino ajudam a explicar a sua posição de apoiar um corte na produção (algo que não sucedia desde 2008) e de não deixar que os preços fossem determinados pelo mercado. Além disso mostrou que a expectativa de que o gás de xisto (a grande esperança americana) entrasse em depressão com os preços baixos não se verificou. E a própria Rússia conseguiu fugir ao problema. Pelo contrário: a decisão de Viena mostrou que a Arábia Saudita e a Rússia se encontraram directamente para chegar a um acordo para estabilizar a produção. E o Irão também se aproximou da mesa de negociações, apesar da sua necessidade pós-levantamento das sanções, para ter níveis de produção altos. No fim, depois de telefonemas de Putin para o Presidente iraniano Rouhani e do trabalho eficiente da Argélia, o Irão foi recompensado com a possibilidade de aumentar a sua quota de produção, no meio dos cortes dos outros membros da OPEP. E a Arábia Saudita não se opôs (fazendo um corte de 500 mil barris por dia), o que mostra que começa a haver uma linha de contacto entre Teerão e Riade. É claro que outros países ficaram incomodados com a situação, como aconteceu com o Iraque. E a Líbia, que está no meio de uma guerra civil, dobrou a sua produção desde Agosto para 600 mil barris diários. Prevendo passar para os 900 mil em 2017. Quer o Iraque quer a Nigéria também desejavam aumentar a sua produção.

 

No meio de tudo isto está o regresso da produção iraniana em força: desde que algumas das sanções foram levantadas em Janeiro a sua produção cresceu quase um terço, para 3,7 milhões de barris por dia. E esperam chegar, em 2021, aos 4,8 milhões barris. Ao mesmo tempo procura acordos com petrolíferas (já o fez com a francesa Total e está em discussões com a Royal Dutch Shell). A ideia lançada por Donald Trump durante a campanha eleitoral de que o levantamento de sanções ao Irão terá de ser renegociado traz incerteza. Mas, por agora, este acordo poderá fazer aumentar os preços. E é isso que, para muitos, importa.

 

Médio Oriente: as alianças estão a mudar

 

No Médio Oriente, todas as atenções estão já voltadas para o mundo pós-Obama e as alterações de alianças que estão a germinar-se. A eleição de Michel Aoun, como Presidente do Líbano, considerado próximo do Hezbollah (o MNE iraniano Mohammad Zarif foi o primeiro dignatário estrangeiro a deslocar-se a Beirute para dar os parabéns a Aoun), mostrou isso. Ao mesmo tempo a guerra na Síria vai continuando a virar-se a favor de Bashar al-Assad e o acordo da OPEP (onde pareceu haver um quase impossível acordo entre a Arábia Saudita e o Irão) mostra alterações de monta nas estratégias locais. E não ficam por aqui. O Governo sírio parece o grande vencedor destas alterações. O Egipto e a Turquia, outrora grandes opositores de Bashar al-Assad, estão a modificar as suas posições. O Cairo já mostrou claramente isso. E a Turquia de Erdogan está a aproximar-se da Rússia. É um facto importante: são duas potências sunitas. E ao aproximarem-se da Rússia estão também a fazê-lo do Irão.

 

São tempos voláteis no Médio Oriente. É evidente uma fragilidade das relações dos EUA com os seus grandes aliados regionais de décadas, Egipto, Arábia Saudita e Turquia. Embora na equipa de Donald Trump há quem deseje repatriar o clérigo Gulen, residente nos EUA, e o grande opositor de Erdogan. Só que é claro o aumento de influência da Rússia na região, a maior desde o tempo da União Soviética. Como palco de fundo parece estar algo que une todos: a necessidade de destruição da facção radical do Islão, representada pelo Daesh, que todos ameaça, incluindo as elites dos países sunitas. O dominó da região está em constante mutação. E Trump só veio dar velocidade a isso.

 

Tailândia: a vez do rei Maha Vajiralongkorn

 

O príncipe herdeiro Maha Vajiralongkorn tornou-se o novo rei da Tailândia, depois de ter aceitado o convite do Parlamento para suceder ao seu pai, o rei Bhumibol, que faleceu em Outubro. O novo rei será conhecido como Rama X e deverá garantir a estabilidade do reino com o qual Portugal tem das mais antigas relações com países da Ásia. E onde tem uma das mais belas embaixadas no exterior. A Tailândia vive um período de dúvidas, depois de os militares terem derrubado em 2014 o Governo eleito. Esperam-se novas eleições em 2017. n

 

Indonésia: conflito religioso?

 

Milhares de manifestantes muçulmanos têm-se manifestado em Jacarta contra o governador da capital, Basuki Purnama, um cristão chinês, acusado de ter insultado o Corão. Purnama vai recandidatar-se ao cargo em Fevereiro contra dois candidatos muçulmanos. Esta eleição é vista também como um desafio às hipóteses de reeleição em 2019 do presidente Joko Widodo, um aliado de Purnama. A Indonésia é o maior país muçulmano do mundo, mas reconhece seis religiões e alberga dezenas de grupos étnicos com crenças muito particulares.

 

Timor-Leste: o melhor café

 

O Festival de Café de Timor-Leste, que visa escolher o melhor café e o melhor cocktail feito com este produto, decorreu até dia 3 de Dezembro, numa iniciativa aberta a agricultores e a grupos de agricultores associados. Foi uma iniciativa da Associação de Café de Timor-Leste (ACTL),  e incluiu a primeira competição de provas de café do país, com juízes profissionais da Austrália, Canadá, México, Tailândia e Estados Unidos. Apesar de reduzida (Timor-Leste exporta anualmente café no valor de cerca de 20 milhões de dólares), a produção de café timorense tem vindo a viver nos últimos anos um processo de renascimento.

 

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5640533 Há 1 semana

O acordo da OPEC et al está condenado.