Fernando  Sobral
Fernando Sobral 10 de maio de 2017 às 20:26

O homem providencial

Vivemos num tempo de homens providenciais. Quando os partidos tradicionais deixaram de ser os actores principais no teatro das ilusões, surgem personalidades que dizem responder a todos os temores.

E têm auditório: os ocidentais transferiram, ao longo dos anos, todas as suas competências para o Estado ou para os mercados. E estão à espera que a política lhes dê as respostas que só a magia consegue dar. O surgimento de Donald Trump, de Emmanuel Macron, e de Marine Le Pen faz parte desses fenómenos perfeitamente compreensíveis. Se as forças organizadas não respondem às necessidades, alguém que diga poder concretizá-las tem todos os ouvidos atentos para o escutar. Mas aí começam os problemas: quando o homem providencial chega ao poder, até quando é que a poesia se transforma em prosa? No Porto, cidade onde germinaram tantas revoluções que alastraram por Portugal, Rui Moreira surgiu como o símbolo de uma nova era, onde a independência dos partidos poderia ser possível. Mas este conflito esperado com o PS abre um novo acto no teatro do poder.

 

O poder repousa no que se consegue obter na prática. E o poder assenta na aceitação da autoridade de alguém pelos outros, normalmente porque sabem que se tentarem resistir poderão falhar. Esse foi o dilema de Manuel Pizarro face a Rui Moreira: tentou manter-se no círculo do poder, abdicando da força que o músculo eleitoral do PS conferia. Não quis correr o risco do confronto com um poder (Moreira) que, na prática, temia. Agora vai ter, sob a batuta de Lisboa, de lutar contra o seu fantasma. Ao mesmo tempo que Rui Moreira vai ter de mostrar que vale mais só do que os partidos (e, sobretudo, o PS) que o sustentaram no primeiro mandato. Estas municipais no Porto vão ser muito mais interessantes do que as de Lisboa. Vão mostrar-nos que tipo de homem providencial querem os portugueses.

 

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