Bruno Faria Lopes
Bruno Faria Lopes 06 de dezembro de 2017 às 20:28

O impacto do presidente Centeno

A eleição para a presidência do Eurogrupo, uma boa notícia para Portugal, tem um impacto muito maior na política doméstica do que na europeia.

1. Mário Centeno como presidente do Eurogrupo é uma boa notícia para Portugal. É a confirmação da credibilidade reconquistada na Europa e que abanou no arranque deste Governo (a credibilidade vale dinheiro dos contribuintes e um apoio maior dos parceiros europeus num futuro momento de aperto). É mais um incentivo pessoal (e mais força no Governo) para "andar na linha" nas finanças públicas. É mais influência para levar o debate sobre a governação do euro por caminhos que, não descurando a responsabilidade nacional, aumentem a partilha de risco e a convergência económica entre todos os Estados-membros.

2. A eleição de Centeno tem um impacto muito maior na política portuguesa do que na europeia. Enquanto a conjuntura económica for favorável, Centeno naquele lugar ajuda a posicionar o PS onde António Costa o quer: no centro. Disciplina a ala esquerdista do PS, rouba espaço à esquerda dura para romper - como romper se a economia cresce, os rendimentos aumentam e a política é responsável? - e força PSD e CDS a irem além do estafado discurso sobre a irresponsabilidade orçamental. Entrámos num novo subciclo dentro deste ciclo político e Centeno na presidência do Eurogrupo é mais um factor para essa mudança.

 

3. É verdade que o ministro passa a ser um dos "rostos do inimigo" do PCP e do BE, como escreveu Ricardo Costa no Expresso, e que o Governo perde o trunfo da culpabilização da Europa (que usou, por exemplo, na discussão do seu primeiro Orçamento do Estado). Para António Costa é um risco calculado. O aumento abrupto dos juros é uma possibilidade até às eleições em 2019, mas não é o cenário central. E com o desgaste acumulado na relação entre PS, BE e PCP, uma degradação súbita nas finanças públicas e o correspondente aperto por parte de Centeno exporiam a linha de fractura entre os três partidos e teriam sempre um efeito potencial devastador.

 

4. A eleição de um ministro socialista de um país periférico do Sul que foi alvo de um resgate há pouco tempo tem mais a ver a conjuntura pós-crise do euro e com o jogo pelos postos políticos de topo na Europa - os países maiores não avançaram e o cargo estava reservado a um governo da família socialista europeia - do que com qualquer desejo de revolução na governação da zona euro. O ministro-economista Mário Centeno tem preparação e margem para poder orientar o debate para a criação de instrumentos de estabilização de choques assimétricos ou para a melhoria da coordenação de políticas tendo em vista os países mais frágeis. Seria um avanço. Mas os problemas de fundo da moeda única - a partilha de risco entre Norte e Sul e a tensão entre o poder centralizador de Bruxelas e o dos governos nacionais - vão continuar a esbarrar nas culturas e incentivos diferentes dos países que a usam. É irrealista pensar que o presidente do Eurogrupo vai resolver bloqueios complexos. Como é infantil acreditar que Centeno vai alterar radicalmente a orientação liberal das reformas propostas - ou desvalorizar a disciplina orçamental.

 

P.S.: Há 15 meses, o ministro Schäuble avisava publicamente para o risco de novo resgate em Portugal. Há 10 meses, em plena polémica Caixa/Domingues, Centeno espalhava-se na conferência de imprensa do "erro de percepção mútuo" e o Presidente Marcelo comunicava ao país que só apoiava a continuidade do ministro "atendendo ao estrito interesse nacional". Foi tudo há meses, mas parece que foi há anos. É verdade que em política as coisas mudam depressa, mas a eleição de Centeno é um clássico nas reviravoltas políticas, inesperada há pouco tempo até pelo próprio.

 

Jornalista da revista Sábado

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comentários mais recentes
Mr.Tuga Há 5 dias

Esta NODOA de pseudo MF de tugaLândia não vai fazer NADA, excepto mamar mais uns euros e umas passeatas em classe executiva e estadia em suite de hotel 5*superior!

O tipo vai fazer o que Merkel MANDAR! Aliás, mal foi eleito foi "convidado" e visitar a Alemanha....

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