Pedro Fontes Falcão
Pedro Fontes Falcão 30 de janeiro de 2018 às 22:33

O incentivo de Ingvar Kamprad

Ingvar Kamprad, o fundador da IKEA, morreu este fim de semana com 91 anos. Criou um império mundial, sabendo ser proativo e perceber como ia evoluindo o contexto económico e social na Suécia e no mundo.

O aumento da frequência de mudança de casa e, logo, de mobiliário, assim como o maior consumismo, a maior preocupação com o design, a valorização da experiência na compra, o imediatismo, foram algumas tendências que a IKEA soube identificar e usar para benefício do seu negócio.

 

O empresário era muitíssimo discreto, exceto na denominação da sua empresa que se baseia nas iniciais do seu nome I e K, acrescido de E (de Elmtaryd, a quinta onde cresceu) e A (de Agunnaryd, a sua terra). A sua enorme discrição lembra-nos o nosso "vizinho" Amancio Ortega (fundador e dono da Inditex, que detém marcas como a Zara), ou o "nosso" Pedro Teixeira Duarte, entre outros. Aqui está uma diferença entre muitos empresários de sucesso americanos (com muita exposição mediática) e muitos europeus, que se preocupam em ser discretos. Mas a falta de mediatismo não parece prejudicar os europeus.

 

A IKEA e a Inditex são casos de sucesso mundiais, mas que demoraram várias décadas a atingir o topo, baseados na indústria. Os grandes empresários europeus, alguns de segunda e terceira gerações de famílias riquíssimas, baseiam-se mais na indústria, e menos nos serviços, onde os EUA ganham relevo.

 

Tendo em conta a menor dimensão e a falta de capital no nosso país, alguns portugueses querem apostar mais nos serviços, especialmente nas tecnologias de informação e comunicação, pois mais rapidamente poderão tornar-se grandes mesmo a nível internacional e atrair investidores, caso o projeto corra bem. Não me parece errado.

 

Mas temos de nos manter também atentos a investimentos na indústria e agricultura (além do turismo, no caso dos serviços). Os recentes encerramentos da Ricon (fornecedora da Gant) e da Triumph não nos devem desmotivar, mas devem-nos ajudar a pensar nos erros que se cometeram, para ver se não se repetem. O mesmo se aplica ao encerramento da fábrica da Opel de Azambuja há largos anos, tendo em conta as notícias menos promissoras que têm saído em relação à Autoeuropa.

 

Por um lado, saber ler o contexto, como Ingvar Kamprad fez, é muito importante. Por outro lado, errar é humano, repetir o erro já não…

 

Gestor e docente convidado do ISCTE-IUL

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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