Adolfo Mesquita Nunes
Adolfo Mesquita Nunes 05 de fevereiro de 2018 às 22:20

O investimento da Google e o interior

Quando a localização de um investimento só provoca uma discussão política indecisa entre Lisboa e Porto é porque o país político já desistiu do território restante.

Quando no interior do país se ouve a discussão sobre se o investimento da Google deveria ser feito em Oeiras ou no Porto, ficamos com a certeza de que o país político não só não percebeu nada do que se passou com a desertificação do território, como também continua sem saber o que seria verdadeiramente essencial para a travar.

 

É de rir que o país político ache que descentralizar o que quer que seja passe por transferir empresas ou serviços para o Porto. Nada contra o Porto, que aliás demonstra uma resiliência e espírito empreendedor exemplares e que muita falta fariam em todo o território, mas o país, o país que arde, o país abandonado, está além da dicotomia entre Lisboa e Porto, está a anos-luz dessa bipolaridade.

 

A prova do abandono do interior é esta, afinal: na hora de discutir a localização do investimento da Google, o país político discute se o mesmo se deve situar numa das duas principais regiões do país, como se o resto, o resto que sobrevive enquanto se discute essa rivalidade, o resto que só é visitado para ver turismo ou agricultura, o resto onde vive cada vez menos gente, não existisse, não merecesse sequer a consideração.

 

Só não é mesmo de rir, essa discussão, porque ela mostra algo bem dramático: quando a localização de um investimento só provoca uma discussão política indecisa entre Lisboa e Porto é porque o país político já desistiu do território restante, aquele que mais precisaria de investimento.

 

Mas se isto é grave, mais grave é o próprio pressuposto da pergunta, que parece presumir que cabe ao Governo, ao poder político, decidir, escolher, onde deve a Google localizar os seus investimentos. Como bem referiu o Nuno Magalhães, a Google é livre de investir onde quiser, não cabendo ao Governo ou aos partidos políticos estar a definir, por ela, a razão de ser dos seus investimentos.

 

E porque é que isto é grave? Porque esses pressupostos, essa ideia de que a Google não vai para o Porto porque o Governo não se mexeu para isso, são tributários de uma linha de pensamento, de uma estratégia, que vê no Governo, no Estado, o motor e decisor do desenvolvimento. Estratégia essa que tem sido dramática para o interior, ainda que poucos o reconheçam.

 

Durante décadas privilegiou-se uma política infraestrutural, muitas obras públicas, subsídios de combate à interioridade, fundos comunitários para aqui e para ali. Mas faltou o essencial, que é fazer do interior o local do país, da Europa, em que mais facilmente uma empresa pode fazer negócio, fazer do interior uma zona franca regulatória, atrativa, tão atrativa que se torne incontornável, desejável para qualquer empresa. Tanto dinheiro gasto e pouco foi feito para tornar a zona competitiva para o investimento, para as empresas. Sem investimento pode haver quantas piscinas municipais quiserem, ou teatros municipais, que a população continuará a deslocar-se para o litoral. As pessoas estão onde há emprego, ponto. E as empresas investem onde querem, ponto. 

 

A pergunta pode e deve ser feita: porque não quer a Google vir para o interior? E não quer não é porque o Governo a não deixou ou porque para lá a não mandou. Não quer porque o interior oferece pouquíssimas vantagens competitivas, e oferece pouquíssimas vantagens competitivas porque há décadas que estamos mais preocupados em satisfazer autarcas do que em satisfazer empresas, mais apostados em desfilar subsídios do que em eliminar custos de contexto e regulatórios, mais vocacionados para convencer políticos do que para convencer investidores. Sem alterarmos esta estratégia, bondosa mas ineficaz, continuaremos a perder país.

 

Advogado

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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