Fernando  Sobral
Fernando Sobral 25 de setembro de 2017 às 21:52

O Irão e o discurso de Trump

O discurso de Donald Trump na ONU mostrou uma política externa americana agressiva. Onde os ataques ao Irão podem trazer mais instabilidade ao Médio Oriente. 

O discurso de Donald Trump na ONU serviu para se perceber melhor quais são os alvos actuais dos Estados Unidos. Para lá do ataque pouco diplomático à Coreia do Norte, Trump criou um novo "eixo do mal", que inclui a Venezuela e o Irão. Mas, sobretudo, mostrou que assinar acordos com os EUA é algo que deixou de ter valor: Trump disse que o Irão é um "regime mortífero" e cujo acordo nuclear foi um mau negócio para os EUA e deixou este embaraçado. Os outros assinantes do acordo, da Rússia à União Europeia, acham que o acordo está a correr bem e que não há razões para uma renegociação. Os únicos países contentes com este ataque ao Irão foram Israel e a Arábia Saudita. Sensatamente o Presidente iraniano Hassan Rouhani disse que o acordo poderia ser usado como um modelo. E, claro, pensava na Coreia do Norte. Nem a Rússia nem a China vão renegociar o acordo. E Rouhani foi claro, na ONU: "A moderação é a sinergia das ideias e não a dança das espadas."

 

Este regresso do Irão como o alvo a abater sucede numa altura de profundas dúvidas sobre o "status quo" no Médio Oriente. Desde a crise com o Qatar, que a Arábia Saudita deseja colocar na sua órbita, que se nota um realinhamento de alianças. A Turquia apoiou Doha e a posição do Irão no conflito e no bloqueio foi determinante. É hoje ponto assente que um dos factores que inviabilizou os planos da Arábia Saudita de invadir militarmente o Qatar foi a ameaça feita pelo Irão de se opor a isso. Juntando isso à presença de tropas turcas em Doha, os planos da elite que governa Riade tiveram de recuar. Não deixa de ser curioso que, neste momento, a Arábia Saudita está a tentar restabelecer as relações com o governo (xiita) iraquiano. E isto, em parte, quer dizer que o regime saudita está a tentar abrir novamente pontes de diálogo com Teerão, depois de em Maio o príncipe herdeiro saudita Mohammed bin Salman ter ameaçado levar a guerra ao interior do Irão se fosse necessário defender os lugares sagrados situados na Arábia Saudita. A estratégia da Arábia Saudita na região, para lá da teia religiosa e política que conseguiu ao longo nos anos, devido a intensos financiamentos de mesquitas e apoios a diversos governos (como o egípcio do general al-Sisi), tem vindo a sofrer revezes: a guerra no Iémen contra os rebeldes houthis é um desastre, os grupos rebeldes na Síria financiados por Riade sofreram várias derrotas e acabaram abandonados e no Qatar a estratégia não parece ter sido bem-sucedida. Numa altura em que Trump volta a querer que o Irão seja um Estado-pária, este (que sofreu um bloqueio económico intenso depois de uma sangrenta guerra com o Iraque de Saddam Hussein) volta a ter um peso regional muito forte. E está a demonstrá-lo.

 

A tentação do Curdistão

 

O referendo que prevê a possibilidade da criação de um Estado independente para os curdos continuou a decorrer nos últimos dias, mesmo com a forte oposição da Turquia, do Iraque e do Irão. Não admira que os chefes de Estado-maior dos três países tenham tido nos últimos dias conservas tripartidas sobre a região e, sobretudo, sobre as consequências que uma independência e criação de um Estado curdo poderia ter para a estabilidade regional. O nervosismo turco é por demais evidente. Porque mostra que a Turquia está desconfiada dos verdadeiros interesses dos EUA e da Rússia na questão. As tentativas para que o presidente do Governo Regional do Curdistão Iraquiano, Massoud Barzani, recuasse no referendo bateram na parede. E Ancara já disse que a fragmentação da integridade territorial do Iraque é uma questão de segurança nacional para a Turquia. O reforço militar turco na fronteira com o Iraque é já evidente e está a ser utilizado como pressão perante os independentistas curdos. Afinal, a Turquia defronta há muitos anos o PKK curdo, que deseja uma pátria curda em território turco (onde serão mais de 15% da população) e vê também com apreensão os ganhos curdos na Síria, que desejam o mesmo. E nisso tem o apoio de Iraque e Irão. Mas Barzani não parece disposto a recuar.

No último fim-de-semana representantes curdos e do Governo iraquiano tiveram encontros em Bagdad, mas não parecem existir resultados positivos. O certo é que nem Washington (que tem utilizado os curdos como tropa no terreno no conflito contra o Estado Islâmico na Síria e no Iraque) nem Moscovo rejeitaram firmemente o referendo. E Barzani está a interpretar isso como um apoio discreto. Só que Barzani dificilmente poderá recuar: se o fizer será uma derrota política. E isso incluirá a sua própria força no contexto da região.

 

Brasil: China quer Oi

 

A China Mobile, o maior operador mundial de  telefones móveis, com 874 milhões de clientes, tem estado a negociar com a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) a possível compra do operador brasileiro de telecomunicações Oi, segundo a revista brasileira Exame. A Oi, a maior empresa de telecomunicações do Brasil, dispunha no final de 2016 de uma carteira de 63,6 milhões de clientes, sendo 39,9 milhões nos telemóveis, 16,4 milhões nos telefones fixos, acesso à internet e TV por assinatura, 6,6 milhões de utilizadores no segmento empresarial e 700 mil telefones de utilização pública. Os conselheiros da Anatel tiveram reuniões com executivos da empresa estatal chinesa para discutir investimentos no Brasil, incluindo na problemática operadora brasileira detida em 27% pela portuguesa Pharol.

 

Macau: prioridade da Air Asia

 

Macau é a principal prioridade da Air Asia na região, pretendendo a companhia acrescentar cinco a seis novas rotas por ano a partir do território, disse o presidente executivo da empresa, Tony Fernandes. "No prazo de cinco anos adicionaremos entre 32 e 34 ligações a partir de Macau", disse o empresário, que recordou que a Air Asia, companhia aérea de baixo custo presente no território desde 2004, já trouxe até Macau cerca de oito milhões de passageiros. Guam também faz parte dos projectos da empresa. Cidades das Filipinas, da Tailândia e ligações da Malásia ao território constam igualmente dos planos da Air Asia para Macau a curto e a médio prazo, bem como para outros destinos que o presidente da companhia preferiu não revelar. A Air Asia Berhad é uma companhia aérea de baixo custo com sede em Kuala Lumpur, Malásia, sendo a maior companhia aérea do país em termos de número de aviões e de destinos.

 

China: investimento no Brasil

 

As empresas da China investiram no Brasil, nos 30 meses terminados em Junho deste ano, 19 mil milhões de dólares, tendo-se tornado nos maiores investidores estrangeiros em fusões e aquisições, ultrapassando os Estados Unidos da América, de acordo com o jornal O Estado de São Paulo. Em 2016, os chineses aplicaram 23,96 mil milhões de reais na compra de activos no Brasil, quase o dobro do investido pelos norte-americanos, tendência que se repetiu no primeiro semestre de 2017.  

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