Fernando  Sobral
Fernando Sobral 16 de novembro de 2017 às 19:44

O isolamento americano e a Europa

Durante milhares de anos os mandarins chineses praticaram a arte de agradar aos imperadores. Sabiam criar o ambiente para a hospitabilidade perfeita para que os visitantes se sentissem bem.

Foi isso que a China fez durante a visita de Donald Trump: este teve direito a uma visita à Cidade Proibida, a uma parada militar e a um banquete no Palácio do Povo. Até presenteou o presidente americano, massajando-lhe o ego, com acordos no valor de 250 mil milhões de dólares. Uma boa notícia para Trump chegar a Washington e dizer que vai haver mais "empregos" para americanos. De Pequim, Trump saiu como um americano feliz, o que lhe permitiu ir para o encontro de líderes asiáticos dizer coisas inenarráveis que colocam em risco a longa relação dos EUA com os seus mais fortes aliados na Ásia. Os EUA querem desenhar uma nova estratégia de "contenção" da china, que passa por uma aliança com a Índia. Mas, pelo caminho, vão queimando velhas amizades.

 

Já não basta o afastamento da Europa, e mesmo a vontade cada vez maior de pôr em causa a UE (como é evidente no caso da Catalunha). Os EUA de Trump julgam que a diplomacia é um negócio e que os presidentes são CEO. Erro que joga a favor da inteligência política de Xi Jinping e da China. Os EUA vão ainda durante muito tempo ter o poder do dólar (moeda livre e facilmente transaccionável) como pilar do seu poder no mundo, já que continuará a ser a moeda de referência. Algo que tão cedo o yuan não conseguirá. Mas, como alertava Thomas L. Friedman num excelente artigo no "New York Times", a China olha a longo prazo. E aí está em vantagem, porque Trump não pensa o mundo como um todo. Só vê uma parte. Por isso não percebe a importância das três "mudanças climáticas" de que fala Trump, e que serão centrais na política do futuro próximo. As mudanças climatéricas existentes vão causar mutações nos ecossistemas, com repercussões na vida económica, social e política.

 

A globalização está a passar de uma fase de interconectividade para uma de interdependência. E está a assistir-se a uma mudança no "clima" da tecnologia e do emprego, com a inteligência artificial a ocupar o território. Qualquer líder tem de pensar nestas mudanças. Trump não o parece fazer, ao contrário da China. Está a perder a batalha das energias limpas, apostando no carvão e no petróleo. Enquanto a China expande a sua rede comercial global (com a influência política que isso traz), com o seu projecto das Rotas da Seda, a América de Trump quer ser "primeira" em tudo e com isso está a afastar a pontapé os seus velhos aliados económicos, culturais e políticos. Ficará a falar sozinha. Friedman, referindo-se aos velhos desenhos animados, diz que a China está no mundo dos Jetsons, enquanto Trump repousa no universo dos Flinstones. Nada garante que a fórmula chinesa, de capitalismo de Estado, seja vencedora. Mas Trump parece, desde já, estar a fazer regressar os Estados Unidos ao espírito do Velho Oeste. 

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comentários mais recentes
Anónimo Há 3 semanas

Google, Apple, Facebook,amazon,Microsoft, IBM entre outras, são as maiores empresas do mundo e são todas americanas. E todas elas estão a apostar forte e feio em AI.
O último reduto da Europa,a indústria automóvel, vai ser levada de volta para os USA com o advento do self driving car.
Não são os USA que andam a dormir, mas sim a Europa convencida da sua superioridade intelectual.
Trump não faz a América pq lá o peso do estado ainda e bem pequeno qdo comparado com a Europa.