Fernando  Sobral
Fernando Sobral 31 de janeiro de 2017 às 00:01

O jogo da Rússia no Médio Oriente

Com o ocaso da política americana para o Médio Oriente, a Rússia vai-se instalando e criando alianças com parceiros que pareciam improváveis, da Turquia a general Haftar, na Líbia.

A presença russa no Médio Oriente avança à mesma velocidade com que a administração Trump vai fechando os EUA sobre si mesmos. Não é um acaso. As conversações de Astana sobre o futuro da Síria aproximaram mais a Rússia da Turquia, outro dos pivôs importantes do futuro daquele país. Desde que em Julho de 2015 o comandante da tropa de elite iraniana Quds, Qassem Soleimani, visitou Moscovo e a Rússia passou a intervir directamente no conflito sírio, o Kremlin é cada vez mais uma voz fundamental na região. A Rússia deseja "congelar" o conflito e para a paz possível é necessário a Turquia, para que esta acalme os grupos armados que se opõem a Bashar al-Assad. Os curdos são assim descartados do processo. A posição de Israel em tudo isto é a menos previsível.

 

Mas, seja como for, a Rússia vai estendendo a sua teia. Como é visível na Líbia, país sem lei desde a queda de Kadhafi (fomentada por americanos, ingleses e franceses). É cada vez mais notória a aproximação de Moscovo ao general Haftar, "senhor da guerra" que lidera o Exército Nacional Líbio (LNA), um aliado próximo do Parlamento de Tobruk, rival do governo de Tripoli, que pouco mais manda do que na capital, apesar do apoio internacional. Haftar está a cimentar o seu poder com o apoio militar russo, sobretudo a nível de tanques, munições e acesso a escutas russas. A Líbia é um alvo importante para Moscovo, já que deseja há muito uma posição militar mais sólida na região depois de a Argélia, há alguns anos, lhe ter negado a base naval de Mers el-Kebir, perto de Orão.

Com a Argélia também a apostar em Haftar, a visita deste ao porta-aviões russo "Almirante Kuznetsov" a 11 de Janeiro poderá significar que um acordo mais vasto poderá já ter sido conseguido. Apesar do embargo internacional à venda de armas, especula-se que muitas das armas russas poderão passar pela Argélia rumo a Haftar. Com um poder mais forte na Líbia poderia também ser possível estancar a fuga de militantes do Daesh do Iraque e da Síria e evitar que se juntem aos do Boko Haram na África Ocidental. Desta forma, a Rússia vai cimentando posições. Mas com a política sinuosa de Barack Obama e com a ainda menos compreensível posição de Donald Trump, que parece apenas favorecer ligações ao Egipto de al-Sisi e à Arábia Saudita, Moscovo pode ganhar espaço para ser uma peça fundamental no xadrez da região.

 

Ásia: Trump põe em causa destino de Taiwan

 

A entrada no ano do Galo quase que coincidiu com a entrada em funções de Donald Trump na Casa Branca. E para os países da Ásia que, durante anos, estiveram no círculo de alianças dos EUA, os sinais não são prometedores. Trump já mostrou que com ele os EUA vão alterar a sua atitude nas relações entre a China e Taiwan, questionando a política de "uma China" de Pequim. Mas, ao rasgar a Parceria Transpacífico (TPP), entre os EUA e diversos países da região, e que era mais do que um simples acordo comercial, Trump poderá pôr em causa o sistema de alianças americano na zona, em vigor desde a II Guerra Mundial. Quem parece ter já mais a perder é Taiwan, e não só por razões económicas. O acordo TPP funcionava como uma forma de combater a China como potencial actor na geopolítica da região. Assim, a China fica com o caminho livre para propor a sua própria solução económica, marginalizando economicamente Taiwan.

 

As relações entre Taipé e Pequim nunca estiveram tão frias. A China desconfia do Presidente de Taiwan, Tsai Ing-wen, líder do pró-independência Partido da Democracia Progressiva. Na frente externa, Taiwan tem estado sob pressão, com a China a tentar desgastar a ligação diplomática da ilha aos 21 países que a reconhecem. Recentemente o MNE do Burkina Faso disse que a China ofereceu ao seu país 50 mil milhões de dólares para deixar de reconhecer Taiwan. Ao fazer implodir o TPP, Trump coloca em causa a possibilidade de Taiwan, sem entrar em confronto directo com a China, ter acesso a relações com muitos países da região. A política de confronto de Trump com a China, vista nas declarações do secretário de Estado nomeado Rex Tillerson, que comparou a actividade chinesa nas ilhas dos mares da China à anexação russa da Crimeia, promete erros ainda maiores.

 

Macau: fundo avança

 

A instalação da sede do Fundo de Cooperação para o Desenvolvimento China-Países de Língua Portuguesa em Macau "está iminente", disse a vogal executiva do Instituto de Promoção do Comércio e do Investimento de Macau (IPIM), Glória Batalha Ung. A responsável adiantou ainda que a transferência da sede do Fundo de Pequim para Macau vai tornar mais fácil para as empresas locais a obtenção de informações sobre esse Fundo, a procura de financiamento para os respectivos projectos e o desenvolvimento dos mercados dos países de língua portuguesa em cooperação com as empresas da China, ao mesmo tempo que presta apoio às empresas dos PALOP para que participem na iniciativa de "Uma Faixa e Uma Rota."

 

Japão: Abe reúne-se com Toyota

 

O primeiro-ministro japonês Shinzo Abe vai reunir-se com o presidente da Toyota, Akio Toyoda, para discutirem como é que o Japão deve responder ao Presidente americano Donald Trump e às suas exigências comerciais que incluem o aumento do investimento nos EUA para criar mais empregos. Trump criticou a Toyota por ir abrir uma fábrica no México. Abe deve reunir-se com Trump no início de Fevereiro. A reunião entre Abe e Toyoda é vista como a forma de demonstrar que Governo e indústria estão a trabalhar em conjunto.

 

Macau: desemprego sobe

 

A taxa de desemprego registada em Macau em 2016 foi de 1,9%, valor que representou um acréscimo de 0,1 pontos percentuais relativamente à taxa registada em 2015, informaram os Serviços de Estatística e Censos. A média do rendimento mensal do emprego da população empregada situou-se em 15 mil patacas (1.875 dólares) e a dos residentes empregados fixou-se em 18 mil patacas (2.250 dólares), valores que se mantiveram sem alteração relativamente aos de 2015. 

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