Armando Esteves Pereira
Armando Esteves Pereira 12 de outubro de 2017 às 20:00

O julgamento dos padrinhos disto tudo

Na acusação do Marquês estão as más práticas de uma elite política e económica que levaram o país à ruína, enquanto desbaratavam milhões. Os visados são responsáveis que levaram o país ao resgate da troika, acumularam imparidades milionárias da banca e destruíram o BES e a Portugal Telecom.

O país que está na acusação da operação Marquês é Portugal, mas esse lugar não é, de facto, um sitio recomendável. Com personagens do calibre de um chefe de governo com maioria absoluta e a receber luvas milionárias por decisões desastrosas, onde o banqueiro mais poderoso paga o que for preciso para manter o império com pés de barro, onde gestores aceitam prémios milionários para tomar decisões que acabam por levar à ruína empresas relevantes, onde os administradores de bancos recebem luvas por créditos de retorno duvidoso e especuladores ganham créditos sem garantias, tendo como única obrigação votar as decisões da mão que dá o dinheiro. Tantas ricas personagens, que dariam uma excelente narrativa, ou um filme, com uma densidade entre a saga do "Padrinho" e "Tudo bons rapazes".

 

Cabe à justiça seguir o seu curso e agora é o tempo das defesas esgrimirem em tribunal os argumentos em favor dos acusados. Só o que for provado em tribunal é que conta, mas os indícios revelados na acusação mostram uma elite económica que vive das rendas do Estado, de privilégios de poder, que conta com a colaboração premiada de políticos corruptos.

 

Esse é o pano de fundo que no fundo já todos sabíamos os contornos principais. Mas com a acusação da operação Marquês ficámos a saber melhor como é que a banca atingiu a montanha de imparidades. Os créditos com luvas de Vara na Caixa, ou os empréstimos de Salgado a Berardo são exemplo das más práticas e da negligência na gestão de instituições financeiras. Os bancos com crédito fácil e barato tornaram-se instrumentos de poder de interesses particulares dos banqueiros que os dirigiam. Vara foi gestor nomeado pelo Estado na Caixa Geral de Depósitos e Ricardo Salgado, com uma estrutura acionista em cascata, dominava com uma pequena participação o poderoso BES, que por sua vez com outra participação minoritária controlava a Portugal Telecom. E das escutas apuradas, hoje pode-se dizer que quem mandava de facto na PT não era aquela administração de "golden boys", mas Ricardo Salgado que decidia o futuro da empresa que tornou banco privativo do grupo familiar. Há também o grupo Lena que esperava conquistar um lugar ao sol nas rendas do TGV. A ferrovia de alta velocidade não avançou, mas os contribuintes gastaram centenas de milhões, em projectos e obra. Sócrates não é o primeiro governante suspeito de corrupção, mas não há memória de alguém ter arrecadado tanto em tantos tabuleiros. E ainda ficou por apurar a verdadeira história do Freeport.

 

Saldo positivo: Ministério Público

A acusação dos envolvidos na operação Marquês é um marco na Justiça. Nunca um grupo de pessoas tão poderosas foi alvo de uma acusação tão grave na história da democracia. O Ministério Público mostrou que há uma efectiva separação de poderes. Quer a Procuradora Geral, quer a liderança do DCIAP merecem ser reconhecidos por esse facto. Basta recordarmo-nos do triste desfecho da Face Oculta para saber que a Justiça nem sempre foi assim independente.

 

Saldo negativo: Rui Rio

Na política, como na vida, não há segunda oportunidade para uma boa primeira impressão. Rui Rio, que durante anos foi uma espécie de D. Sebastião de uma parte do PSD, decidiu agir e entrar na corrida pela liderança do partido. Mas teve azar no dia escolhido para a apresentação "urbi et orbi" da candidatura. Foi o dia em que a acusação da operação Marquês monopolizou as atenções e a iniciativa de Rio não passou de uma nota de rodapé do interesse mediático.

 

Algo completamente diferente

Se ainda há romantismo no futebol é na Taça de Portugal, onde uma equipa com orçamento de dezenas de milhões de euros pode jogar contra um plantel de amadores. Quando um grande visita a pequena vila do interior, a dimensão da festa é ainda maior. Foi o que aconteceu ontem em Oleiros, localidade do Pinhal Interior, zona martirizada este ano pelos fogos. Antes do jogo houve polémica por causa do campo sintético, mas o valor simbólico da presença de um grande numa vila do interior, prova que o futebol pode ser um instrumento de coesão nacional.

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comentários mais recentes
Amilcar Alho Há 3 dias

Folgo em saber que já leste as 4000 páginas da acusação. O MP esteve bem nas investigações que fez às contas bancárias. Quanto à conexão entre o dinheiro e as operações subjacentes é tudo conversa da treta. Os arguidos vão ser apenas condenados, como o Isaltino, por crime fiscal e branq. capitais.

Mr.Tuga Há 4 dias

Os tais famosos "crânios" da elite de XEO`s tugas PRINCIPESCAMENTE PAGOS, porque são fabulasticos e insubstituíveis e até condecorados pelo PR!

Sitio atrasado de TRAMPA!

Anónimo Há 4 dias

Direita, BPN fraude de milhoes, submarinos faude, portucale, vistos gold, presidentes de camara com processos aos molhos, mas a direita e impoluta, ou qyer ser os maiores corruptos que portugal jamais viu, sempre guiados pelo magestoso ministerio, quando a verdade vier acima nao vai sobrar nada

tristeza xuxxa Há 4 dias



Os xuxxas andam tão caladinhos desde que o seu profeta Xócrates os deixou envergonhados.