Armando Esteves Pereira
Armando Esteves Pereira 16 de novembro de 2017 às 20:03

O limite da chapa ganha, chapa distribui

Os portugueses estão confiantes na economia e esperam que o orçamento lhes dê mais dinheiro. E os funcionários públicos querem aproveitar este tempo de alegadas vacas gordas para recuperarem os prejuízos assumidos nos anos do ajustamento.

A maioria dos portugueses acredita que o Orçamento do Estado para 2018 dará mais dinheiro às famílias. É o que diz uma sondagem publicada ontem no Jornal de Negócios. O descongelamento faseado das carreiras da função pública e as mexidas do IRS que aliviam os rendimentos mais modestos, escondem a subidas de taxas e impostos indiretos.

 

A narrativa de António Costa - "chapa ganha, chapa distribui" - pegou mas curiosamente estas expectativas podem tornar-se perigosas para o governo. Em tempo de vacas gordas e com a aparência do dinheiro a jorrar, cada um quer mais para si. E, naturalmente os funcionários públicos, que foram beneficiados com as políticas deste governo, que lhes retirou os cortes da troika e descongelou de forma faseada as carreiras, exigem agora a compensação de todos os anos de vacas magras, em que além dos cortes de rendimentos tiveram as carreiras congeladas. É esta a razão dos protestos de várias carreiras da Função Pública, desde professores, polícias, enfermeiros, médicos e magistrados.

 

Estes servidores do Estado viram as suas expetativas salariais e evolução na carreira limitadas nos anos da crise. Os cortes e congelamentos começaram ainda antes do resgate, no executivo de José Sócrates. A primeira bandeira deste executivo foi precisamente a abolição dos cortes. O País saiu da crise, com o PIB a voltar a crescer acima dos dois por cento, após uma longa estagnação. A confiança dos agentes económicos melhoraram, assim como as expetativas das famílias.

 

Perante um governo dependente de uma maioria parlamentar de esquerda, com partidos que defendem fortemente a Função Pública, sendo que são também estes trabalhadores os que têm mais força sindical, os tempos do alívio orçamental aquecem as expetativas dos trabalhadores do Estado que pretendem ser ressarcidos pelos prejuízos das carreiras congeladas.

 

O problema é que o governo não tem condições financeiras para satisfazer todas as reinvindicações, sem aumentar a já brutal carga fiscal. E como até agora ninguém, nem nos anos da troika, teve coragem de fazer uma verdadeira reforma do Estado, o agravamento de custos atinge uma dimensão perigosa.

 

Pode parecer ao governo que esta onda reivindicativa da Função Pública revela alguma ingratidão, depois de todas as devoluções de rendimentos já concretizadas. Mas como explicam os mestres da psicologia, quando uma necessidade está saciada, há logo outra que  urge. E a política é a gestão das expetativas.

 

Saldo positivo: saldo nos juros da dívida

 

A redução do custo de financiamento da dívida pública é uma boa notícia. A República poupa milhões de euros com a conjuntura favorável. Até a nova emissão de OTRV tem um corte substancial face às emissões anteriores. Como exemplifica o trabalho publicado ontem neste jornal, a queda da remuneração destes títulos destinados ao retalho tornam pouco interessantes os investimentos até 5 mil euros, por causa das comissões cobradas pelos bancos.

 

Saldo negativo: Isabel dos Santos

 

Em 50 dias de presidência, João Lourenço está a provocar mudanças na elite angolana. A família do ex-presidente está a ser alvo desta revolução. A demissão de Isabel dos Santos da liderança da Sonangol é a mexida com mais impacto, mas a retirada de privilégios aos filhos de José Eduardo dos Santos é um sinal de que João Lourenço que alterar o "status quo". Angola é um parceiro fundamental de Portugal e o que se passa em Luanda pode ter reflexos neste canto da Europa.

 

Algo completamente diferente: as feridas da tragédia um mês após o apocalipse

 

Passou um mês sobre o apocalipse que devastou as Beiras, provocando 47 mortos, dos quais só 45 constam da lista oficial. Há dois desaparecidos, que provavelmente foram incinerados nas chamas. A região tenta reerguer-se, mas nota-se um atraso na resposta do Estado. Há muitas empresas fechadas, com empregos em risco. E a nível ambiental há outra tragédia à vista com a provável erosão dos solos quando chegarem as chuvas. Basta comparar a reação das autoridades galegas à tragédia do mesmo dia, para ver como o Estado devia agir. 

A sua opinião2
Este é o seu espaço para poder comentar o nosso artigo. A sua opinião conta e nós contamos com ela.
Faltam 300 caracteres
Negócios oferece este espaço de comentário, reflexão e debate e apela aos leitores que respeitem o seu estatuto editorial, promovam a discussão construtiva e combatam o insulto. O Negócios reserva-se ao direito de editar, apagar ou mesmo modificar os comentários dos seus leitores se atentarem contra o bom senso e seriedade.O acesso a todas as funcionalidades dos comentários está limitada a leitores registados e a Assinantes.
comentar
comentários mais recentes
Anónimo Há 3 semanas

Comentário muito realista e certo. Gostei poque põe o dedo nos problemas e no futuro.
Pena que as pessoas não comentem este artigo. Devem estar muito preocupados com a realidade que este tipo de artigos lhe faz medo...

Mr.Tuga Há 3 semanas

Aguardem pela subida das taxas e petróleo, e vão ver como vai doer.... Mas os tugas de 1ª FP só vem o seu próprio umbigo! Os outros, de 2ª, que trabalhem e que se fod***.