Ulisses Pereira
Ulisses Pereira 05 de dezembro de 2016 às 09:56

O louco ano de 2000

Após várias semanas de euforia em torno da Reditus, a empresa voltou a negociar com uma valorização de 250%, num dia de loucura.
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A monotonia do actual momento da Bolsa portuguesa é de tal forma acentuada que se torna difícil escrever análises diferentes das que tenho vindo a fazer. Aproveito, por isso, esta letargia para recordar um momento único no nosso mercado, que ficará para sempre na sua História e que foi uma enorme lição para muitos.

O início de 2000 foi um dos períodos mais emotivos da História da Bolsa portuguesa. Os principais mercados mundiais viviam um momento de euforia e a praça portuguesa não fugia à regra. Diariamente várias acções subiam fortemente, numa onda de loucura colectiva. Os noticiários abriam com notícias de novos máximos históricos na Bolsa portuguesa, os jornais da especialidade esgotavam, os fóruns de Bolsa na Internet estavam repletos e as salas de mercados cheias com os investidores a celebrarem as subidas constantes.

Recordo-me que, nessa altura, recebia cerca de 100 e-mails por dia, com os investidores a querem saber quais as acções que deviam comprar. E se alguém cometia a ousadia de advertir que as quedas se aproximavam era imediatamente apelidado de louco. Curiosamente, a minha empregada de limpeza, analfabeta e que nunca tinha falado de Bolsa na vida, discutia comigo as melhores acções para comprar naquela altura. Infelizmente, não tive o discernimento necessário para perceber o claríssimo sinal contrário que a minha empregada me tinha acabado de dar.

Esta onda de euforia acentuou-se à medida que o topo (Março de 2000) se aproximava. Eram, sobretudo, os títulos do sector tecnológico que tinham as maiores valorizações, impulsionados também pelo enorme "boom" que a Internet vivia. A Reditus era uma das acções incluídas neste leque de acções e estava a ter boas valorizações tendo, na última quinzena de Janeiro de 2000, valorizado cerca de 50%. Contudo, no final de Janeiro, a negociação da Reditus foi suspensa devido ao anúncio de uma operação "harmónio" que a empresa ia anunciar.

Durante o mês de Fevereiro, enquanto a loucura atingia o seu auge na Bolsa portuguesa, a Reditus continuava suspensa com os investidores ansiosos pelo dia em que ela voltasse a ser cotada no mercado. Foram semanas de especulações sobre o preço a que reabriria a acção, com os investidores a anteciparem uma valorização extraordinária.

Durante vários dias, a acção não pode reabrir porque o sistema estava carregado de milhares de ordens de compra "ao melhor", o que fazia com que a Reditus, caso começasse a negociar, abrisse a ganhar cerca de 2000%! A CMVM não deixou que a acção abrisse e obrigou a que todas as ordens tivessem preço, o que protelou a reabertura da acção por mais uns dias e fez com que a Reditus apenas reabrisse um mês depois de ter sido suspensa. Foi muito criticada esta decisão da CMVM mas eu considero que foi a decisão mais sensata que poderiam tomar.

A reabertura ocorreu no dia 1 de Março de 2000, com a Reditus a iniciar a sessão a ganhar cerca de 250%, atingindo o máximo do dia com uma valorização de 460% e fechando a sessão a ganhar cerca de 330% face à última sessão! Foi um dia de completa loucura, em que muitos investidores realizaram o melhor negócio da sua vida e muitos realizaram o pior negócio de sempre, comprando acções perto do seu máximo histórico.

É curioso como conheci algumas pessoas que a única compra que fizeram até hoje em Bolsa foi a de acções da Reditus naquele dia. Tinham sido semanas sucessivas com os investidores a espalharem a euforia pelos amigos e a convencê-los que a Reditus, por estar suspensa e não beneficiar das subidas ocorridas nessas semanas, seria a melhor compra do mundo e dinheiro garantido. Muitos aprenderam ali várias regras básicas: não entrar no mercado no meio da euforia e não agir pelos conselhos dos outros.

Apesar do topo da Bolsa portuguesa ter sido atingido apenas uns dias depois, essa sessão da reabertura da Reditus fica como o símbolo da euforia e do final de um dos mais explosivos "Bull Markets" do nosso mercado. Os meses seguintes foram o desvanecer dos sonhos de muitos investidores, com o fim de uma bolha especulativa e o início de um dos mais violentos "Bear Markets" de que há memória que levou a maior parte das acções a cair cerca de 90%.

Somos sempre tentados a pensar que momentos de tamanha euforia como os que aí se viveram jamais se viverão, mas a História dos mercados prova que estes movimentos de euforia e pânico tendem a repetir-se. É por isso que é tão importante conhecer o passado. Para que o futuro não nos surpreenda.



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