Adolfo Mesquita Nunes
Adolfo Mesquita Nunes 13 de fevereiro de 2017 às 19:30

O mais sério risco que enfrentamos

O nosso futuro próximo joga-se nas eleições presidenciais francesas: se França sair do euro, como promete Le Pen, rompe-se o frágil equilíbrio em que assenta a nossa economia.

É essa uma das suas promessas, a saída ordenada do euro, como se houvesse algo de ordenado na súbita desvalorização da moeda, na vertigem da inflação, na destruição imediata da poupança e do poder de compra das pessoas, na falência iminente da esmagadora maioria das pequenas e médias empresas, na supressão do acesso ao crédito e ao financiamento; como se houvesse alguma ordem no caos, no desastre.

 

Dir-se-á que essa proposta é uma espécie de agenda de protesto, populista, pronta para ser metida na gaveta, já que nenhum político quer ficar responsável pelo caos.

Pura ilusão.

 

É no caos causado pela saída do euro que Le Pen procura, como qualquer autoritário que se preze, encontrar os fundamentos para uma nova ordem. É na devastação, na pobreza, no colapso, que ela procura encontrar espaço para o seu programa. Está lá tudo, cristalino, basta ler as 144 propostas que Le Pen já apresentou.

 

Quando as lojas fecharem, a culpa é dos lojistas que não querem vender barato, quando as fábricas pararem, a culpa é dos capitalistas que querem fugir, quando os bancos falirem, a culpa é dos mercados usurários, quando a comida faltar, a culpa é dos que estão feitos com o capital. Já conhecemos a ladainha: o país não cresce porque há concorrência a mais, há mais pobres porque há ricos a mais, o custo de vida disparou porque os privados só querem o lucro, não há emprego porque o Estado ainda não manda nas empresas, não há dinheiro porque não se imprime o suficiente…

 

Tudo isso permite a afirmação de um programa proteccionista, intervencionista, nacionalizador, assente na impressão de dinheiro, fundado na ideia de que dois mais dois não têm necessariamente de ser quatro. Já vimos isto na Argentina ou na Venezuela, e ainda que saibamos da miséria que por lá se viveu ou vive, todos os dias a nossa extrema-esquerda nos vende o mesmo programa.

 

Mas desta vez não estamos a falar da Argentina ou da Venezuela. Nem estamos a falar das cantilenas do Podemos, do Syriza, do Bloco ou do PCP. O Podemos está entretido nas suas divisões, o Syriza está a braços com o fracasso das suas ideias, e o PCP e o Bloco aplaudem hoje os orçamentos que preservam a moeda única e que a ela se submetem.

 

Estamos a falar de França. O euro não resistirá a uma saída de França, e a nossa economia, com os níveis de endividamento que tem, não resistirá ao fim súbito do euro. 

 

Ao contrário de algumas das ideias xenófobas de Le Pen, ao contrário de parte da sua ideia de sociedade fechada, a concretização desta proposta de saída do euro teria consequências directas, quase imediatas, na economia portuguesa.

 

Deveríamos por isso prestar mais atenção no que está a passar-se em França. Não tanto com o interesse de quem segue com preocupação a política internacional, mas com a convicção de que o frágil equilíbrio da nossa economia pode ser colocado em causa pelas escolhas dos franceses, com a noção de que a saída do euro pode ser-nos imposta, de forma indirecta, pelas escolhas dos franceses.

 

Uma eventual vitória de Le Pen, por mérito próprio ou demérito dos seus adversários, representa bem mais do que a ascensão de uma populista. É talvez o mais sério risco que enfrentamos, enquanto país e enquanto economia, e convinha levá-lo mais a sério.

 

Advogado

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comentários mais recentes
Francisco Há 2 semanas

Ideias de um democrata. Vá dizer a quem perdeu o trabalho, a casa e foi viver para casas de familiares, que imprimir dinheiro é uma desgraça, que sair do Euro é o fim, que a economia não pode, que a Europa é que sim, que a democracia funciona mas só quando se vota no PSD ou no CDS.

Mr.Tuga Há 2 semanas

Concordo!

E não esquecer a Holanda...