Manuel  Falcão
Manuel Falcão 07 de Novembro de 2016 às 21:05

O mal menor?

O enredo do filme é fantástico: envolve polícias, políticos, milionários, actores, desportistas, cantores e jornalistas. A cena final está ainda por decidir e o desfecho cria enorme expectativa.

De um lado, uma mulher que anda na política desde meados dos anos 80 e que nessa área já fez de tudo um pouco - até primeira-dama; do outro, um homem de negócios que fez fortuna na construção, foi produtor e participante em programas de televisão e "reality shows" e organizador de concursos de "misses". Ela suscita paixões no seu partido e na sociedade; ele provoca cisões no seu partido e o ódio de muitos. É o enredo perfeito.

 

Voltemos à realidade: neste fim-de-semana, Donald Trump criticou Hillary Clinton por esta ter o apoio de Jay Z, argumentando que o "rapper" utiliza linguagem imprópria nas suas canções. Vinda de quem vem - de um homem que usa por sistema uma linguagem excessiva - a acusação parece uma anedota, mas não é. Aconteceu mesmo e foi a reacção mais saliente de Donald Trump ao apoio que Hillary Clinton tem recebido de músicos, actores, escritores e que nos últimos dias se intensificou. Mesmo publicações que não costumam tomar posição em eleições, desta vez apareceram a apelar ao voto em Hillary Clinton - como a Variety, uma revista dedicada exclusivamente ao mundo do espectáculo e que nos seus 111 anos de vida nunca tinha tomado uma posição eleitoral. Também a bíblia da moda, a revista Vogue, dirigida pela temida Anne Wintour, apelou ao voto em Hillary. Hollywood, a Quinta Avenida e Silicon Valley não só manifestaram opinião como doaram milhões de dólares para a campanha de Clinton. E até a circunspecta The Economist declarou apoio à candidata democrata. A edição desta semana da revista New York tem um grande plano, a preto e branco, da cara de Trump, com uma barra encarnada por cima, onde aparece apenas uma palavra: "Loser."

 

Mas será que todos estes apoios serão suficientes? Outra revista, The New Yorker, fazia notar que um dos problemas maiores com que Hillary Clinton se defronta, sobretudo entre os eleitores mais novos, é o facto de ela representar o poder instituído. Hillary está na política desde meados dos anos 80, primeiro ao lado do seu marido, e , depois, desde o início deste século, por conta própria. Obama afirmou que esta longa carreira política, em muitas funções e situações, a tornava na candidata mais preparada de sempre. O problema, para muitos eleitores, é que ela surge como a representante da velha política , da intriga palaciana de Washington, e no seu passado, nessa sua longa carreira política, existem muitas posições controversas. Na realidade, o seu passado é uma faca de dois gumes. Uma sondagem recente indica que um terço do segmento demográfico dos "millennials" ( que vai dos 18 aos 39 anos) irá votar num dos outros candidatos que não Clinton ou Trump - nomeadamente em Jill Stein, que concorre pelo Green Party. Uma outra sondagem, no mesmo segmento demográfico, indica que cerca de 70% dos "millennials" rejeitam Trump. Na verdade tudo está ainda por decidir e a sucessão de posições e declarações oficiais do FBI, inéditas durante uma campanha eleitoral, veio ainda baralhar mais o estado das coisas. A campanha eleitoral dura há quase 600 dias e, como salientava a revista Time, citando uma eleitora, transformou-se num referendo entre o que as mulheres podem alcançar e aquilo que os homens querem esconder que fizeram. Para muitos dos eleitores que hoje vão decidir sobre o futuro próximo do mundo, trata-se de escolher o mal menor. E o mal menor é sempre fraca política.

 

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