Helena Garrido
Helena Garrido 10 de julho de 2012 às 23:30

O mau e bom estado da Nação

Pela primeira vez, desde a segunda guerra mundial, Portugal regista este ano um excedente comercial. Um número que retrata a enorme capacidade de adaptação dos portugueses que, em menos de dois anos, passaram de esbanjadores consumidores para aforradores exportadores. Revelador de um Estado que estaria em muito melhor estado se outras e melhores fossem as lideranças.
Pela primeira vez, desde a segunda guerra mundial, Portugal regista este ano um excedente comercial. Um número que retrata a enorme capacidade de adaptação dos portugueses que, em menos de dois anos, passaram de esbanjadores consumidores para aforradores exportadores. Revelador de um Estado que estaria em muito melhor estado se outras e melhores fossem as lideranças.

O debate sobre o estado da Nação, que hoje marca o fim da sessão legislativa, deveria revelar este país. Um país feito de pessoas que se assustaram em Outubro do ano passado, perceberam que o paraíso prometido pelo euro era uma ilusão e puseram mãos à obra. Uns partem para trabalhar lá fora, outros vão lá para fora conquistar clientes.

Os mesmos portugueses que se endividaram, reagindo assim aos incentivos que as políticas públicas lhes foram dando desde finais dos anos 80 do século XX, responderam agora com extraordinária rapidez e flexibilidade aos problemas que se colocaram com o colapso financeiro do país.

Já tinha acontecido noutras ocasiões. Após a revolução de 1974, em pleno choque petrolífero, o país foi capaz de integrar quase um milhão de pessoas vindas das ex-colónias sem conflitos que merecessem essa designação. Nos anos 80, quando pela segunda vez o FMI esteve em Portugal, as medidas adoptadas para corrigir os desequilíbrios financeiros tiveram um resultado imediato e surpreendente.

O actual processo de correcção dos desequilíbrios financeiros promete ser mais um caso de sucesso da história económica portuguesa se tudo correr bem na frente europeia. Tal como no passado, os portugueses anónimos, aqueles que não vivem à custa do dinheiro dos contribuintes, fazem o que é preciso fazer, fazem aquilo que as políticas económicas sinalizam que é necessário fazer.

Estes mesmos portugueses, a maioria despreza naturalmente e cada vez mais a classe política, para desgraça do nosso futuro democrático, mas sem que se possa dizer que alguns políticos não o mereçam.

A capacidade que os portugueses revelaram em mudar, para se adaptarem às novas circunstâncias, contrasta com a incapacidade que o sistema político-partidário revela em mudar. Olhamos para este ano de novo governo e mesmo perante a difícil situação financeira em que o país se encontra o que vemos é mais do mesmo.

Outros "boys" vieram, para os "jobs" que o aparelho do Estado ainda tem para distribuir. A crise não acabou com a guerra das nomeações nos partidos do Governo nem com os negócios feitos à medida de empresas e sociedades que pertencem a quem é do partido. E lá está no Governo também um "super boy" desta vez chamado Miguel Relvas a quem tudo tem sido permitido, desde ameaçar jornalistas a manchar a imagem da comunicação social, de empresas, de universidades e, claro, do próprio Governo.

Há quem diga que Portugal tem os governantes que merece. Não é assim. Há governantes que são mais parecidos com o que de melhor tem o povo português, neste governo como noutros.

Esta crise, como outras, mostrou ser capaz de mudar a vida de muitos portugueses. Só não parece ter sido capaz de mudar o comportamento dos partidos nem a atitude de alguns políticos que vêem na política uma via para se promoverem e não para servirem o Estado.

Nestes tempos frágeis, o que já se deseja apenas é que o mau estado da Nação não expulse o bom estado da Nação.

Declaração de interesses: No quadro da referência que no texto se faz às universidades e embora o tema não seja esse, em nome da transparência, o leitor deve saber que a autora é também professora de jornalismo na Universidade Lusófona há mais de uma década.


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comentários mais recentes
Anónimo 13.07.2012

bem, senhora professora de jornalistas, a conclusao primeira que tirei do seu artigo eh que tapar-se os buracos ao barco, que mete agua, eh condicyao essencial para que este nao afunde. Depois, sim, o medo de investir no barquinho reduz, e a pesca pode frutificar.

Dos jornalistas, pede-se e espera-se melhor formacyao para que nao alimentemos a alma sempre ak base de guisados e desaguisados.

José Guinote 12.07.2012

Uma vergonha esta crónica. O excedente comercial é sobretudo fruto da baixa brutal do consumo interno provocado pela demolição do factor trabalho e pelo aumento brutal do desemprego.O Governo está a testar o tratamento do burro do cigano que estava quase a habituar-se a sobreviver sem comer até que, inesperadamente, morreu no sétimo dia.
Os portugueses não estão a aforrar estão a sobreviver e com tremendas dificuldades privados dos meios para poderem ter uma vida digna. Os portugueses não foram esbanjadores endividaram-se, sobretudo, para aquisição de casa própria, uma opção sem alternativa durante décadas. Opção que foi a maior fonte de negócio da banca portuguesa.
Esta crónica é sobre uma ficção que diz coisa nenhuma à realidade em que vivemos.

JJJJ 12.07.2012

O problema é o exemplo de hoje: o professorado não está de férias nem em greve e lá estão todos no Rossio em manisfestações. Trabalhar não é nada com eles.
Gostei de ver ontem os médicos (tadinhos) todos de branco, que giros!... explorados, coitados. Não há direito.
qualquer dia vemos numa manif os pilotos da TAP, no Rossio, com fardas, galões e tudo!...

Anónimo 12.07.2012

Que bom que seria para Portugal, que todos os Miguel Relvas, fossem despejados!!!
Esta terra não tem uma democracia.Tem sim uma TACHOCRACIA, que urge por termo.

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