Joaquim Aguiar
Joaquim Aguiar 11 de dezembro de 2017 às 19:57

O medo do debate  

O que se vê na América de Trump é demasiado semelhante ao que se viu na Alemanha de Hitler e na União Soviética de Estaline.

A FRASE...

 

"O debate político parece-se cada vez mais com o futebol e respectivas claques. O que interessa é a cor e a camisola. O que conta é saber quem apoia e quem critica. Ou quem é apoiado e quem é condenado."

 

António Barreto, Diário de Notícias, 10 de Dezembro de 2017

 

A ANÁLISE...

 

Há comparações ou analogias que não provam nada porque os temas de referência não têm relações entre si. A política não é comparável com o futebol, do mesmo modo que um adepto de clube não é comparável com o militante de um partido, nem o espectador de um encontro desportivo é comparável com a atitude do eleitor quando escolhe em quem votar. Mas é porque a analogia entre debate político e claques do futebol não prova nada que a semelhança de comportamentos de políticos e de adeptos de clubes é interessante. Esta semelhança ou convergência de comportamentos aparece como reveladora dos processos de formação da coesão interna de grupos sociais, em que se troca a racionalização das adesões assumidas em liberdade pela emoção dos juramentos de sangue ou dos pactos de bombistas suicidas. Não foi o clubismo que penetrou e infectou as organizações partidárias, foram estas que se degradaram até se transformarem em estruturas clubísticas.

 

Quando a relação política se radicaliza até se resumir à polarização entre amigo e inimigo, já se está no campo do totalitarismo, onde as palavras são trocadas por pedras, quem for oposição é encarcerado e os argumentos são disputados com bombas. Quando se sugere que os militantes dos partidos se assemelham a claques de clubes de futebol, o que se está efectivamente a dizer é que os atributos da democracia pluralista se degradaram de tal modo que se criou o ambiente propício ao totalitarismo, e que está aberta a via para a revolução conservadora do fascismo ou para a revolução socialista do comunismo.

 

O que se vê na América de Trump é demasiado semelhante ao que se viu na Alemanha de Hitler e na União Soviética de Estaline para que não se tenha de suspeitar de que há uma origem comum a estes processos. E o que há de comum é o medo do debate, o medo da democracia pluralista, o medo da economia de mercado, o medo da competição, o medo da inferioridade, o medo da decadência, o medo da derrota.

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

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