Armando Esteves Pereira
Armando Esteves Pereira 30 de Outubro de 2016 às 17:24

O melhor amigo da geringonça

O ministro alemão das Finanças acaba por ser, involuntariamente, um grande amigo do Governo português. O falcão germânico foi deselegante ao criticar, em Bucareste, a política da geringonça.

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Pode alertar o ministro Mário Centeno numa reunião do Ecofin, mas dar Portugal como um mau exemplo na periférica Roménia é uma atitude lamentável, que António Costa agradece.

 

Schäuble até pode ter razão nas críticas e, de facto, a geringonça escolhe um caminho de risco, mas tratando-se de um dirigente da linha dura da CDU alemã, transforma este tema em pura discussão política e assim está a fazer um favor ao Governo português.

 

Neste contexto, em que o novo orçamento até devolve aparentemente mais rendimentos à maioria dos contribuintes e a milhões de pensionistas e milhares de funcionários públicos, as vozes dos profetas da desgraça não têm muito eco. E ao acentuar que "Portugal ia bem até mudar de Governo", o ministro alemão está a complicar a tarefa de Pedro Passos Coelho como líder da oposição. Um dos problemas de Pedro Passos Coelho perante António Costa é precisamente a colagem do antigo primeiro-ministro à receita da troika. Enquanto Passos Coelho até ia, em alguns casos, além da troika, o actual líder do Governo não concorda com a receita e numa política mais populista, que rende mais votos, vai distribuindo algumas migalhas.

 

Se há mérito em António Costa é mesmo na arte de governar, tentando manter o poder. E como revelam a generalidade dos estudos de opinião, se as eleições legislativas fossem hoje, continuaria a haver uma maioria de esquerda, com o líder socialista a primeiro-ministro. Na gestão do ciclo político, António Costa mostra ser tão hábil quanto foi Aníbal Cavaco Silva. Ambos definiram orçamentos para ganhar eleições. Obviamente que nos tempos de Cavaco Silva as vacas eram bem mais gordas, mas António Costa mantém a ilusão que não são assim tão magras como diz o actual líder da oposição.

 

Com o Orçamento aprovado e a nota da canadiana DBRS a manter aberta a torneira do BCE, a geringonça pode continuar a empurrar com a barriga todos os problemas estruturais. A pressão fiscal, sentida de forma anestésica, com o agravamento dos impostos indirectos, vai continuar a encher os cofres do Fisco. Não chega para acabar com os dramas do défice, mas talvez seja suficiente o Governo continuar acima da linha de água.

 

E se não houver nenhuma catástrofe interna ou externa e a DBRS mantiver a nota de "rating" da República portuguesa acima do lixo, o BCE continuar com juros baixos e a comprar dívida portuguesa, a margem de manobra do executivo português continuará a ser suficiente para manter o actual quadro político. E nesse sentido as críticas a Portugal do ministro alemão, ou da chanceler de Berlim, são apenas tiros ao lado, que danificam mais a oposição de direita do que o Governo da geringonça.

 

É evidente que a prazo, a continuação do crescimento económico anémico, conjugado com a subida sistemática da dívida pública para patamares insustentáveis obrigarão a novo resgate. Mas quem governa não está preocupado com esse cenário. Na política portuguesa há quem leve demasiado à letra a frase de Keynes: "A longo prazo estamos todos mortos." O que interessa é hoje, amanhã e para o ano. Depois logo se vê.

 

Director-adjunto do Correio da Manhã

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comentários mais recentes
Jose Alves Inacio Há 14 horas

Quando alguém diz uma verdade, logo e criticado. Porém , quando a situação se complicar e formos ao fundo, logo verão que ele tem toda a razão.

Anónimo Há 2 dias

Só podia vir de um tipo do CM.O Schauble tem razão porque quando isto dentro em breve falir são eles que têm que entrar com o dinheiro para manter esta Europa apodrecida por dentro pela esquerda:Fica o meu apelo às armas e para que punhamos esta cambada toda daqui para fora de uma vez por todas.

surpreso Há 2 dias

Este tipo gostava das "verdades" e agora vem fazer coro com os que criticam Schauble?Ele tem toda a razão!Um partido,dito de "governação" ,o PS, abriu as portas a exigências comunistas e esquerdistas,revertendo as reformas do Ajustamento.Verdade ,ou não?

Alexandre Policarpo Há 2 dias

O politicamente correcto já causa nauseas. As declarações, certeiras e acertadas, do ministro das finanças alemão ajudam a geringonça em Portugal porque o Costa pode dizer: olhem, aí está o papão!, mas não ajudam nada o Costa lá fora, que é o que mais importa. Os juros a 10 anos já vão nos 3,4%!!!

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