Carlos Almeida Andrade
Carlos Almeida Andrade 02 de agosto de 2017 às 22:05

O "mistério" da inflação desaparecida

Apesar da evolução favorável da actividade económica global, a inflação mantém-se teimosamente abaixo das expectativas e das metas dos bancos centrais.

Desde Fevereiro, o crescimento dos preços recuou mesmo de 2,7% para 1,6% nos EUA e de 2% para 1,3% na Zona Euro. Neste quadro, assiste-se a um "confronto" entre, por um lado, os bancos centrais, como o Fed e o BCE, que continuam a sugerir a necessidade de uma normalização da política monetária e, por outro, os mercados, que vêem nessa normalização um erro. Mas por que motivos se mantém a inflação aparentemente indiferente à recuperação da actividade económica? Há razões conjunturais, como a forte descida do preço do petróleo em 2015-16, cujos efeitos são ainda sentidos. Serão relevantes, também, o aumento do subemprego e a compressão de margens das empresas, na sequência da Grande Recessão. Há razões técnicas, menos visíveis no debate público, associadas à melhoria da qualidade dos produtos. Por exemplo, melhorias nas tecnologias de informação (e.g. um computador mais rápido ou a oferta de mais serviços num pacote de telecomunicações) são reflectidas, estatisticamente, em descidas do Índice de Preços do Consumidor, ainda que o dinheiro pago por esses bens ou serviços não se altere. E há razões estruturais, sobretudo associados à pressão da globalização. A desagregação das cadeias de produção, proporcionada pelos avanços tecnológicos e pela abertura dos mercados, traduz-se numa redução dos custos de produção e, logo, dos preços. Neste contexto, poderá também ser referida alguma perda de "poder" dos trabalhadores no que respeita às exigências salariais.

Aliás, um dos "puzzles" da actual recuperação económica prende-se com o baixo crescimento dos salários. Naturalmente, quando este é definido a partir dos níveis passados da inflação, uma das razões pelas quais os salários crescem pouco é o facto de a inflação ser baixa, o que pode ser visto como algo conjuntural. Mas há, também, factores estruturais a restringir o crescimento dos salários, incluindo uma tendência de desaceleração da produtividade, em si mesma difícil de explicar e algo contra-intuitiva, dada a percepção de que vivemos num mundo de crescentes inovações tecnológicas. Admite-se que as inovações recentes se encontrem focadas, sobretudo, no consumo e lazer, gerando - por enquanto - menores ganhos de eficiência na produção do que no passado. Caricaturando (ou talvez não…), faz mais diferença passar a ter um computador ou acesso à internet do que passar de uma app para uma outra app melhor. Este impacto das inovações poderá alterar-se num futuro não muito distante mas, para já, o baixo crescimento da produtividade traduz-se num baixo crescimento dos salários.

 

Apesar de todos estes argumentos, é importante ter consciência de alguns factos: (i) a descida da inflação nos meses recentes pode, em grande medida, ser explicada por efeitos temporários relacionados com a evolução do preço do petróleo (forte subida homóloga nos primeiros meses de 2017 e descida homóloga a partir daí, embora o preço do barril de Brent no início de Agosto seja semelhante ao observado no final de Março); excluindo estes efeitos temporários, a inflação segue uma tendência gradual de subida; em algumas categorias (por exemplo, nos serviços), a inflação enfrentada pelos consumidores é bem mais elevada do que o registo médio do IPC; e (ii) os níveis actuais de inflação nos EUA e na Zona Euro estão, na verdade, próximos das respectivas médias de longo prazo. Na Zona Euro, os registos da inflação de Julho - 1,3% e, a nível "core", 1,1% - comparam com médias de 1,65% e 1,34%, respectivamente, no período 2003-2017. Isto é, não se pode verdadeiramente falar num "mistério" de uma inflação desaparecida. Condicionados, é certo, pelos factores estruturais atrás referidos, caminhamos lenta e gradualmente para uma normalização da inflação. E é por isso que o Fed e o BCE - que tomam decisões com um horizonte de médio prazo e não com base nos últimos dois ou três indicadores de actividade - insistem numa normalização da política monetária. Face à enorme pressão em sentido contrário exercida pelos mercados, veremos se irão a tempo de o fazer antes da próxima baixa do ciclo.

Economista

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É o efeito China e seus satélites.Pergunte ao Ortega, da Zara

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