Daniel Gros
Daniel Gros 22 de fevereiro de 2011 às 12:14

O mito japonês

A primeira década deste século começou com a bolha da Internet (ponto-com).
Quando rebentou, os bancos centrais movimentaram-se de uma forma agressiva para flexibilizar a política monetária, de forma a prevenir um prolongado período com crescimento lento ao estilo japonês. Mas o longo intervalo de tempo com baixas taxas de juro que se seguiu à recessão de 2001 contribuiu, contudo, para a emergência de uma outra bolha, neste caso no sector imobiliário e no crédito.

Com o colapso da segunda bolha em apenas uma década, os bancos centrais actuaram, outra vez, de uma forma rápida, reduzindo as taxas até zero (ou para perto disso) em quase todo o lado. Recentemente, a Reserva Federal norte-americana lançou até um conjunto de medidas de flexibilização quantitativa, sem qualquer precedente, que pretendiam acelerar a recuperação. Novamente, o principal argumento foi o de evitar a “década perdida” do Japão.

As decisões políticas são muitas vezes dominadas pelas lições aprendidas na história económica. Mas essas lições sobre o exemplo japonês são, em grande parte, um mito. A base para a assustadora história do Japão é a de que o PIB do país tem crescido na última década a uma taxa anual média de apenas 0,6%, comparada com os 1,7% marcados pelos EUA. A diferença é, de facto, muito mais pequena do que se pode supor, mas à primeira vista um crescimento de 0,6% justifica a qualificação de “década perdida”.

Segundo esta medida, poder-se-ia argumentar que uma boa parte da Europa também “perdeu” a última década, dado que a Alemanha regista as mesmas taxas de crescimento do Japão (0,6%) e a Itália ainda marca piores números (0,2%). Apenas a França e a Espanha evidenciam um comportamento um pouco melhor.

Mas este cenário de estagnação em muitos países é enganador, porque deixa de fora um importante factor, nomeadamente, a demografia.

Como se devem comparar os valores de crescimento entre um grupo de países semelhantes e desenvolvidos? A melhor medida não é o PIB global, mas sim a evolução do rendimento por cada habitante pertencente à população activa (e não per capita, ou seja, não por toda a população do país). Este último elemento é importante porque apenas a população activa representa o potencial produtivo para a economia. Se dois países atingem a mesma taxa em rendimento da população activa, deve-se concluir que ambos têm sido igualmente eficientes na utilização do seu potencial, mesmo se o crescimento do PIB global for diferente.

Quando se observa o PIB por população activa (definido como os habitantes entre os 20 e os 60 anos), obtém-se um resultado surpreendente: o Japão tem, na realidade, um melhor comportamento do que os EUA e que muitos países da Europa na última década. A razão é simples: as taxas de crescimento do PIB global têm sido bastante baixas, mas o crescimento foi alcançado, apesar da acelerada diminuição da população em idade laboral.

A diferença entre o Japão e os EUA é visível nesta comparação: em relação ao crescimento do PIB global, ela fica-se por um ponto percentual, sendo maior no que diz respeito às taxas de crescimento por população activa – mais do que 1,5 pontos percentuais, dado que a população em idade laboral cresceu 0,8% nos EUA, tendo a do Japão retrocedido ao mesmo ritmo.

Outra indicação de que o Japão tem usado integralmente o seu potencial é a de que a taxa de desemprego tem sido constante na última década. Pelo contrário, a taxa de desemprego nos EUA quase duplicou, aproximando-se agora dos 10%. Pode-se, portanto, concluir que os norte-americanos deviam tomar o Japão como um exemplo, não de estagnação, mas de como conseguir um crescimento máximo a partir de uma fonte limitada.

As diferenças demográficas são relevantes não apenas na comparação entre o Japão e os EUA, mas também para explicar muitas das distinções existentes nas taxas de crescimento a longo prazo entre as economias avançadas. Para os países do G-7, pode-se estimar que o crescimento da população activa se traduza num aumento de um ponto percentual da taxa de crescimento do PIB. Os EUA marcaram um desempenho ligeiramente pior do que o esperado por esta medida aproximada; o Japão conseguiu um melhor comportamento; e muitos outros países ricos estiveram muito próximos da mesma.

Olhando para a próxima década, esta análise sugere que se pode prever as taxas de crescimento relativas dos países ricos com base no padrão de crescimento demográfico das suas populações activas. Esse é um dado que já se conhece hoje, pois todos os que vão entrar na idade activa nas duas próximas décadas já nasceram.

Sendo assim, o declínio relativo do Japão como uma das principais potências económicas vai manter-se, já que a população activa vai continuar a reduzir-se em torno de 1% ao ano. A Alemanha e a Itália apresentam cada vez mais os mesmos padrões de quebra do Japão em relação aos habitantes em idade laboral, e, provavelmente, vão crescer também muito ligeiramente.

No caso da Alemanha, pode-se observar um interessante facto na sua demografia: de 2005 a 2015, a população activa vai estabilizar. Mas isso vai ser seguido por uma queda acentuada, quando esta parte da população diminuir ainda mais rapidamente do que no Japão.

A actual força da economia germânica deve-se, em parte, a esta estabilização demográfica temporária. Mas um cenário ao estilo japonês parece inevitável a partir de 2015. Pelo contrário, os EUA, o Reino Unido e a França devem crescer a um maior ritmo pela simples razão de que as suas populações activas continuam a aumentar, mesmo que a um ritmo relativamente lento.

Podem-se tirar duas lições desta consideração sobre a influência dos factores demográficos no crescimento económico. Primeiro, a ideia da “década perdida”, ao estilo japonês, é errada – mesmo quando aplicada ao próprio Japão. O crescimento lento deste país ao longo da última década deveu-se a uma tendência demográfica desfavorável e não a políticas macroeconómicas agressivas.

Depois, um maior abrandamento das taxas de crescimento dos países desenvolvidos parece inevitável, tendo em conta que até nas nações com maior dinâmica o crescimento da população activa está em queda. Nos países menos dinâmicos, como o Japão, a Alemanha ou a Itália, uma quase-estagnação parece um facto ao qual não podem fugir.



Daniel Gros é director do Centro para os Estudos Políticos Europeus.

Copyright: Project Syndicate, 2011.
www.project-syndicate.org

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http://media.blubrry.com/ps/media.libsyn.com/media/ps/gros18.mp3
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