Álvaro Nascimento
Álvaro Nascimento 08 de janeiro de 2018 às 21:47

"O modelo de crescimento que escolhemos!"

Quando a política e a conjuntura económicas favorecem visões de curto prazo, as empresas optam por estruturas organizacionais flexíveis, mostrando-se incapazes de assumir riscos pelos seus trabalhadores.

A FRASE...

 

"Portugal arrisca-se a nunca sair do modelo de salários baixos e de trabalho precário."

 

Alexandra Figueira, Jornal de Notícias, 5 de Janeiro de 2018

 

A ANÁLISE...

 

Os resultados apresentados sobre a precariedade do mercado de trabalho são o corolário lógico da opção de desenvolvimento escolhida pelo Governo e, racionalmente, perpetuada pelas empresas: ou seja, a ausência de uma política económica clarificadora e coerente assente num sistema de incentivos catalisador de estratégias de crescimento sustentado da produtividade e da competitividade.

 

E não se pense que a dimensão das empresas daqui resultante - acompanhada da concomitante complexidade dos modelos de negócio - funcionaria como uma ameaça à remuneração dos trabalhadores. O argumento falacioso de que nas grandes empresas a distribuição do rendimento favorece o capital - e a administração - é uma história de governo corporativo, que merece atenção especial.

 

Nicholas Bloom, economista de Stanford, publicou em 2017 um artigo, referindo que a desigualdade na distribuição de rendimentos dum país é uma questão empresarial. A discrepância de remunerações é maior entre empresas do que dentro delas. Em regra, as empresas bem-sucedidas - e mais bem organizadas - pagam salários mais altos e preocupam-se com o seu desenvolvimento profissional, por ser este um factor de produtividade e de competitividade.

 

Quando a política e a conjuntura económicas favorecem visões de curto prazo, as empresas optam por estruturas organizacionais flexíveis, mostrando-se incapazes de assumir riscos pelos seus trabalhadores. Quando prevalece a incerteza sobre os modelos de negócio e o quadro institucional (e, também, tecnológico) o permite, os contratos de trabalho tornam-se precários. Em muitos casos, revestem a forma de aquisição de serviços especializados, que são nada mais do que relações laborais encapotadas.

 

O sucesso do turismo em Portugal é bem exemplificativo deste modelo de especialização competitiva. O surgimento de pequenos negócios, que interagem "precariamente" com as companhias de aviação e agências de turismo externas, corporiza a transferência de riscos para o contrato de trabalho. Mas, como me dizia acertadamente um taxista da cidade de Lisboa: o que está a acontecer é bom para o país, porque o dinheiro não fica na mão dos "grandes" e chega (rapidamente, acrescento eu) a muitos cidadãos!

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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