Hans-Werner Sinn
Hans-Werner Sinn 09 de fevereiro de 2017 às 20:00

O motivo pelo qual a UE tem de ser generosa com o Reino Unido

Nenhuma relação pode florescer se os seus membros se sentirem presos. Uma união não é diferente. Por mais contraditório que possa parecer, a única forma de a UE se manter junta é deixando o Reino Unido sair com termos generosos.

A primeira-ministra britânica, Theresa May, confirmou-o. O Reino Unido vai, sem dúvida, deixar a União Europeia e negociar novos acordos comerciais. A questão é que tipo de acordo a União Europeia (UE) vai aceitar.

 

O Reino Unido, May já deixou claro, não quer um acordo como o da Suíça ou da Noruega porque isso exigiria ceder algum controlo sobre a sua política de imigração. Submeter-se à jurisdição do Tribunal Europeu de Justiça, que os líderes britânicos acusam de dar sentenças com base em interesses, também não é uma opção.

 

Mas a UE não está preparada para simplesmente permitir que o Reino Unido deixe cair aquilo que não gosta sem pagar um preço. Os líderes da UE insistem que o Reino Unido não pode ter acesso ao livre comércio com o mercado único sem permitir a livre circulação de pessoas. Esta teimosia surge, em parte, devido ao receios que, se o Reino Unido conseguir um acordo tão desigual, outros membros da União Europeia tentem fazer o mesmo. Mas a vontade de castigar os britânicos, ainda que seja apenas para dissuadir outros membros de saírem rapidamente, é também um factor que contribuiu para esta posição.

 

Esta abordagem é errada. Apesar de ser, sem dúvida, lamentável que o Reino Unido vá sair, a verdade é que o livre comércio com a UE não tem de ser acompanhado pela livre circulação de pessoas. Como mostra a teoria pura do comércio, os efeitos económicos e os ganhos em termos de segurança social resultantes do livre comércio são substituídos, não melhorados, pela livre circulação de trabalhadores. 

 

Se a migração não é possível, provavelmente vão surgir estruturas salariais diferentes entre os países – trazendo com isso diferentes preços. Estas diferenças aumentam os ganhos do comércio; de facto, explorar tais diferenças é o objectivo do comércio. Se a UE se recusar a apoiar o livre comércio com o Reino Unido, os seus cidadãos vão sofrer tanto como os britânicos.

 

O argumento que outros países da União Europeia iriam seguir o caminho do Reino Unido é dúbio. Há dois tipos de comunidade política. Uma satisfaz o Princípio do Pareto: uma vez que a comunidade toma decisões de forma unânime – ou, pelo menos, apoia regras que protegem as minorias – implementa medidas que dão vantagens a alguns ou a todos os membros e não cria desvantagens para ninguém. Esta abordagem significa que os países não estão a lutar por uma fatia maior do bolo à custa dos outros. De facto, trabalham em conjunto e de forma voluntária para assegurar que o bolo continua a crescer e que todos têm uma fatia decente.

 

O outro tipo de comunidade é caracterizado por, em primeiro lugar, redistribuição dos recursos entre os países e, em segundo lugar, pelo facto de ser a maioria a tomar as decisões. Aqui, há vencedores e vencidos, porque a maioria pode impor as suas preferências, mesmo que os ganhos dos seus membros sejam ultrapassados pelas perdas da minoria. Em resultado disto, o bolo torna-se cada vez mais pequeno e alguns países ficam muito descontentes.

 

Este segundo tipo de comunidade é instável porque os vencidos tendem a não participar. A única forma de mantê-los dentro da comunidade é tornando a saída pouco atractiva – digamos, castigando-os. Ao tentar fazer do Reino Unido um exemplo, a União Europeia está a enviar a mensagem de que é uma união em que alguns membros podem perder. Esta é a narrativa que está a ser promovida pelo novo presidente norte-americano, Donald Trump, que declarou o seu apoio ao Reino Unido e a sua expectativa que mais países o sigam.   

 

Para evitar tal desfecho, a UE tem de se transformar a partir de uma união redistributiva, regida pela maioria, numa união melhor e voluntária, regida pela unanimidade – uma que esteja em conformidade com o Princípio de Pareto. O primeiro passo deve ser descartar o plano de criar um ministro das Finanças da União Europeia, com poderes de uma autoridade de tributação autónoma. O seguinte é oferecer ao Reino Unido um acordo de livre comércio que seja benéfico para ambos os lados.

 

Se a UE não mudar a sua abordagem, arrisca-se a tornar-se numa comunidade não consensual, na qual apenas alguns dos seus membros estão felizes – e outros querem sair. Ainda que as penalizações e outras medidas coercivas possam fazer com que alguns membros hesitem durante algum tempo, esta abordagem deixaria a UE susceptível à instabilidade e os seus membros a uma situação de vulnerabilidade que poderia ser aproveitada. A Europa pode acabar a sofrer o mesmo destino da União Soviética.

 

Nenhuma relação pode florescer se os seus membros se sentirem presos. Uma união não é diferente. Por mais contraditório que possa parecer, a única forma de a UE se manter junta é deixando o Reino Unido sair com termos generosos.

 

Hans-Werner Sinn, professor de Economia na Universidade de Munique e membro do conselho consultivo do Ministério da Economia alemão, foi presidente do Instituto Ifo.

 

Copyright: Project Syndicate, 2017.
www.project-syndicate.org
Tradução: Ana Laranjeiro
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comentários mais recentes
Anónimo 01.03.2017

Hans-Werner Sinn

Se um pais pode ter as vantagens da União Europea sem compartilha dos compromiços para que existe União , sera melhor todos sairem , sua opinião é completamente IDIOTA

5640533 12.02.2017

Sinn nunca sugeriu generosidade com os países do Sul.

Ciifrão 12.02.2017

Tanta preocupação no controlo de fronteiras, deve ser porque o país é uma ilha.

eduardo.santos 10.02.2017

Se a UE fizer o que dita a sua opinião todos os outros querem ir atrás, e nesse caso esta viciada a UE , e o ponto final deste sonho esta ao virar da esquina .