Fernando  Sobral
Fernando Sobral 10 de julho de 2017 às 19:40

O mundo líquido de António Costa

Quando o mestre Zygmunt Bauman decretou o fim da modernidade sólida e a sua passagem para a sociedade líquida não reparou em Portugal. Hoje em dia o mundo que nos rodeia é volátil. Instável e escorregadio.

Tudo se transforma menos esta aldeia gaulesa da política nacional que defende até ao fim a modernidade sólida. O discurso político nacional é consistente e imutável. Basta vermos o que se diz hoje sobre as cativações e sobre a falta de dinheiro do Estado para os serviços públicos. Se colocássemos, por momentos, os partidos do poder na oposição e vice-versa, o que escutaríamos? António Costa desliza agora pela sociedade líquida depois de um ano e meio de solidez moderna, feita à custa de boas notícias. Ele sente isso, porque o Governo gravita à volta do seu carisma. Mas este é o tempo em que o mundo líquido destrói todas as pedras duras. Até Setembro toda a estratégia do executivo foi costurada à volta de um défice mínimo para agradar a Bruxelas. Conseguindo-o, e com um piscar de olhos no sentido de diminuir a dívida, tudo poderia correr bem para o segundo desígnio: que as agências de "rating" deixassem de fazer birra e tirassem o país do "lixo" onde nos enfiaram.

 

Só que o mundo de hoje é instável e imprevisível. E, sem influência de bruxos, aconteceu Pedrógão Grande, Tancos e a queda de três secretários de Estado, estes antecipando-se com inteligência política a imprevisíveis danos maiores num futuro próximo. António Costa não deixará cair os seus ministros frágeis e gasosos como Azeredo Lopes ou Constança Urbano, mas dificilmente eles não deixarão de estar a prazo. A política, muitas vezes, é uma questão de mal menor, como dizia Antonio Gramsci: "Todo o mal maior se faz menor em relação a outro que ainda é maior, e assim até ao infinito." Só que, brevemente, por trás das ilusões políticas, se colocará a verdadeira questão: como fazer retornar a qualidade dos serviços do Estado que os anos da troika devastaram? E essa não é uma realidade líquida. 

 

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