Isabel Stilwell
Isabel Stilwell 02 de Janeiro de 2017 às 20:35

O muro da gratidão

Num ano em que se multiplicaram os muros de exclusão, uma ação de crowdfunding promove um muro de orações que encontraram resposta. Um milhão de tijolos, um milhão de razões para celebrar.

O ano de 2016 foi o ano dos novos muros, depois do esforço que o mundo fez para os deitar abaixo. Durante 365 dias, Donald Trump, de cabelo laranja e cara bolachuda, lembrando um dos três porquinhos (ou mesmo os três), perorou desvairadamente sobre as qualidades do muro que vai construir, vangloriando-se das suas qualificações como construtor civil. Prometeu-nos que será de pedras, de paus e de palha, e do que mais vier à rede, o importante é que deixe o lobo mau do outro lado.

 

Enquanto isso, os ingleses e os franceses, de quem esperávamos mais, não lhe ficaram atrás, com a ideia peregrina de um muro em Calais, destinado a impedir os imigrantes clandestinos de saltarem para cima dos camiões que fazem a travessia pelo túnel do canal da Mancha. Já então a Bulgária e a Hungria haviam transformado fronteiras em muros de exclusão, alimentados pela ilusão de que no século XXI se circunscreve o perigo com arame farpado.

 

Mas, nos últimos dias do ano dos muros, dei por acaso de caras com um muro diferente, o projeto da construção de um muro de gratidão - o "The Wall of Answered Prayer" (um muro de orações que tiveram resposta) é uma ideia de Richard Gamble, antigo capelão do Leicester City Football Club, que pelo dinamismo que conseguiu imprimir à sua visão, aprendeu no futebol a mover multidões. A proposta é criar, num local bem visível de uma auto-estrada de grande movimento, um marco arquitetónico formado por um milhão de tijolos, cada um correspondendo a uma oração a que Jesus deu resposta.

 

Não gosto muito da ideia de um Deus que às vezes ouve e outras aparentemente não escuta, que acolhe os pedidos de uns e faz ouvidos de mercador a outros, nem tão-pouco de um Deus bombeiro que intervém para salvar alguém, deixando sofrer o vizinho, mas gosto da ideia de um muro feito de histórias. De histórias de pessoas que se viraram para fora de si mesmas, que procuraram apoio, inspiração e força para vencer as adversidades, que tiveram a coragem e a humildade de pedir e acreditar. Mas, sobretudo, de gente capaz de agradecer, de enumerar bênçãos em lugar de colocar o enfoque nas lamentações.

 

E histórias não vão faltar. Nesta iniciativa de "crowdfunding" cada voluntário envia o seu depoimento (por escrito ou num vídeo), que fica armazenado numa gigantesca base de dados - um milhão de histórias com final feliz -, e compra um tijolo que simbolicamente o representa. Paga por ele o preço que entender, ou nada, se em consciência não o puder fazer. Em 2018, poderá confirmar, na versão 3D do monumento, onde é que a sua peça vai encaixar, bastando clicar no seu tijolo para aceder à informação que lhe corresponde. "Um dia, um dos seus bisnetos pode apontar para o muro e dizer: 'Aquele tijolo é a oração da minha bisavó', e contar a história que lhe corresponde", diz Richard Gamble. E se não é isto a eternidade, o que é?

 

Agora é preciso dar forma a este marco de esperança. Em associação com o Royal Institute of British Architects (RIBA), foi lançado um concurso internacional de design, que ainda está a decorrer. No desafio aos arquitetos de todo o mundo, pede-se uma verdadeira obra de arte que inspire quem passa por ele ou quem o visita, física ou digitalmente. Pede-se que rompa com a tradição, interpele e surpreenda. A mim já me surpreendeu.

http://thewall.org.uk 

 

Jornalista

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