José M. Brandão de Brito
José M. Brandão de Brito 08 de novembro de 2017 às 18:56

O nosso défice de poupança

Na verdade, a nossa fraca propensão à poupança poderá ser um monumental equívoco. As taxas de juro um dia irão subir e quando isso acontecer o enorme nível de endividamento do nosso país criará problemas económicos e financeiros.

A FRASE...

 

"(…) Não se pense que 5,2% [da taxa de poupança] é um valor saudável para as famílias portuguesas. Por comparação, a média da Zona Euro no ano passado foi 12,2%. Em França, supera os 14% e na Alemanha os 17%."

 

Jornal de Negócios, 24 de setembro de 2017 

 

A ANÁLISE...

 

A poupança é a pedra basilar do desenvolvimento económico, porque só reservando (poupando) alguma da produção presente é possível acumular capital, que é o ingrediente fundamental da produtividade. Sem poupança, portanto, não há crescimento. Alguns economistas argumentam que, como as economias desenvolvidas têm acesso ao mercado internacional de capitais, a geração interna de poupança tem pouca relevância. Na realidade, não é bem assim. Os mercados servem para suprir necessidades pontuais, não para financiar quem gasta sistematicamente acima das possibilidades. Mais tarde ou mais cedo, um país cronicamente deficitário deixa de ter acesso ao crédito internacional e colapsa. A crise do euro em 2010-2012 é paradigmática a este respeito. Daqui resulta que Portugal necessita de poupança em abundância se não quiser ficar à mercê das agências de "ratings" e dos investidores. Mas não é isso que está a acontecer.

 

Se a queda sustentada da taxa de poupança portuguesa durante a primeira década do século foi justificada pela disponibilidade e baixo custo de fundos externos que a pertença de Portugal à área do euro possibilitou, já a recente redução dos níveis de poupança para mínimos históricos, não deixa de gerar perplexidade e preocupação, dado que ainda mal saímos da crise. Certamente existem explicações, como o baixíssimo nível das taxas de juro e a sensação de que a crise já passou, a que acresce um tema mais estrutural, ligado à ideia de que o estado de providência cobrirá cada vez mais riscos económicos e sociais. Todas estas razões reduzem o incentivo à poupança, mas não explicam o contraste entre Portugal e a Alemanha ou França.

 

Na verdade, a nossa fraca propensão à poupança poderá ser um monumental equívoco. As taxas de juro um dia irão subir e quando isso acontecer o enorme nível de endividamento do nosso país criará problemas económicos e financeiros, ao mesmo tempo que reduzirão a capacidade de resposta do Estado. Nessa altura, as poupanças revelar-se-ão extremamente úteis… para quem as tiver, claro.

 

Artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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comentários mais recentes
Com o PS as poupanças serão cada vez menos! Há 2 semanas

O PS odeia a poupança. Costa Pina rebentou com os certificados de aforro série B, criando a série C q não valia nada. Depois começaram os resgates em força, teve q o Teixeira dos Bancos criar os certificados de tesouro para compensar a sangria dos CA. Agora Centeno deu a machadada nos C. Tesouro!!!

Cidadao Há 2 semanas

Se tivéssemos os ordenados do norte da Europa também poupávamos.
O ordenado mal da querem que trabalhemos que nem escravos e os ricos a gozar.
Ao menos temos dividas que os que vierem paguem.
Se houver uma guerra ,as dividas são todas esquecidas como aconteceu na 2º Guerra mundial.

Mr.Tuga Há 2 semanas

O tuga atrasado e pestilento odeia POUPANÇA!
Está sempre a contar com o "ovo no Cú...." e que alguém lhe dê caridade...
E a SEMclasse tugalitica de TRAMPA incentiva o consumismo e desincentiva a poupança....
Sitio ATRASADO de TRAMPA sem visão...