Isabel Stilwell
Isabel Stilwell 09 de maio de 2017 às 20:01

O nosso (desfocado) paraíso fiscal 

Somos uns choramingas. Não só nos queixamos do que temos, como passamos a vida a desejar ser ricos, produtivos e organizados como os estrangeiros quando, vai-se a ver, e afinal os tipos são uns infelizes.

Os jornais gratuitos em Londres prosperam - têm mais páginas, mais notícias, e mais publicidade. Num tempo em que a imprensa escrita enfrenta a concorrência da digital, sabe bem ver as pessoas a ler jornais em papel, confirmando que são eles que têm de ir ao encontro das pessoas. A quantidade de anúncios confirma, também, que está superado o preconceito de que o oferecido é sinónimo de menor qualidade, porque se há coisa que as marcas não fazem é deitar dinheiro à rua. 

 

A Portuguese Chamber of Commerce, por exemplo, confia que por ali vai chegar aos seus potenciais clientes, porque nos dois dias seguidos que estive na cidade, vi páginas inteiras com a sua assinatura, propondo aos londrinos que se mudassem para Portugal. A fotografia da "offshore" portuguesa, sob a forma de uma casa com piscina, está francamente desfocada (o que fica bem a um paraíso fiscal), mas de qualquer forma o azul do céu e as "deck chairs" ao lado da piscina são irresistíveis para os pobres coitados que, ainda em Maio, andam de casaco e cachecol.

 

E o que oferecem aos que estão a pensar em mudar-se para Portugal? Pois, tudo aquilo que nós, os portugueses, nos queixamos de não ter. Ou seja, direito a pensões sem impostos, casas a preços em conta, um custo de vida mais barato, cuidados de saúde excelentes e um estilo de vida soalheiro.  E mais que só iria ser divulgado hoje, dia 10 de Maio, entre as 11 da manhã e as 9 da noite, num encontro a acontecer numa suite de um hotel, com a presença dos melhores especialistas em imobiliário, fiscalistas, advogados e muito mais, acompanhado de vinho nacional.

 

Confesso que olhei por cima do ombro na esperança de que Theresa May, ou um daqueles ministros maldispostos do Norte da Europa não viajassem na mesma carruagem. É que, vá-se lá saber porquê, embirram contra quem anda a aliciar os seus cidadãos a fugir a pagar impostos.

 

Não consegui deixar de achar que é extraordinária a hipocrisia nacional. Enquanto por cá enchemos os jornais e as sessões parlamentares com diatribes contra contas no estrangeiro, e os que arranjam esquemas para pagar menos impostos, acusando-os de serem traidores da pátria, indiferentes à miséria dos seus conterrâneos, compramos páginas nos jornais estrangeiros a oferecer o que condenamos. Interessante.

 

Mas superados os dilemas éticos que a livre concorrência fiscal pode apresentar, fiquei a matutar sobre questões mais prosaicas.  Ora vamos lá por partes. 

 

Ponto 1: somos uns choramingas. Não só nos queixamos do que temos, como passamos a vida a desejar ser ricos, produtivos e organizados como os estrangeiros quando, vai-se a ver,  e afinal os tipos são uns infelizes obrigados a pagar balúrdios de impostos, a viver em casas manhosas, a passar horas nos transportes e a fazer das tripas coração para pagar as contas, com um serviço de saúde sofrível, tudo isto agravado por  não  andarem de calções e chinelas, como nós.

 

Ponto 2: em Portugal, com tão poucos a pagarem impostos (só menos de metade dos portugueses pagam IRS), e com tantos impostos a pagar pelos que não lhes conseguem escapar, só nos resta esperar que num qualquer hotel em Lisboa, os ingleses promovam uma campanha para nos mudarmos para o Reino Unido. Uma vez lá, podemos finalmente regressar a Portugal e ter a vida que a Câmara Portuguesa de Comércio promete, e bem, a quem apanha o metro todos os dias.

 

Jornalista

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico 

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mais votado Anónimo Há 1 semana

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Anónimo Há 1 semana

Formidable comentario !

Rui Há 1 semana

A senhora esqueceu-se de dizer que o rendimento médio em Portugal é de 900 euros e que há muita gente a ganhar o salário minimo de 500 euros. Se os ingleses conseguem comprar casas em Portugal com o seu rendimento, já os portugueses têm que apertar o cinto para chegar ao fim do mês.

nuno vaz Há 1 semana

Isso á uma questão de OPINIÃO ! Eu, penso que Bocência não deve estar bem dentro deste assunto !

Anónimo Há 1 semana

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