Isabel Stilwell
Isabel Stilwell 05 de dezembro de 2017 às 20:42

O novo in vai ser off 

Estamos tão dependentes dos telemóveis como os adolescentes, mas como bons viciados achamos sempre que o vício dos outros é mais perigoso do que o nosso. 

Adoramos falar dos problemas dos adolescentes, fazer estudos sobre o seu comportamento, colando rótulos que supostamente permitem profetizar o futuro. Suspeito até de que quanto mais insatisfeitos estamos com a nossa própria vida, mais "voyeurs" nos tornamos. E, quando damos por isso, parecemos aqueles especialistas da National Geographic que, escondidos por uma folha de palmeira, espreitam os hábitos de outras espécies - só que, desta vez, as criaturas são os nossos filhos, tratados como se tivessem nascido e crescido por geração espontânea.

 

Durante décadas, o enfoque esteve no estudo obsessivo do comportamento sexual dos mais novos, alegadamente muito mais "devasso" do que o dos adultos, embora o número de novos casos de sida na população com mais de cinquenta anos, revelados ainda esta semana, conte uma história diferente, com Portugal num dos lugares cimeiros.

 

Agora mudámos de tema, mas a incapacidade de nos olharmos ao espelho continua a mesma. Desta vez acendem-se os holofotes sobre os perigos das novas tecnologias. Nos jovens, bem entendido. Os estudos, e só nas últimas semanas foram três, revelam adolescentes que passam longas horas na internet, trocam mensagens e chamadas sem fim, e estão de tal forma "ligados" que tocam no telemóvel quase três mil vezes por dia. Seguem-se-lhe correlações assustadoras como progressiva dificuldade de concentração, mais isolamento, mais depressão e até suicídio. E lá vão os especialistas à televisão teorizar sobre os problemas de uma nova geração, como se não fossem também os nossos.

 

Porque, a verdade é que estamos tão dependentes como eles. Ainda nem abrimos os olhos e já esticamos o braço para o telemóvel, justificando-nos com o trabalho, a urgência de responder a um mail ou de conhecer o estado do trânsito. Acusamo-los de não serem capazes de uma conversa cara a cara, mas instalamos apitos e sinais para nos darem, ao instante, o resultado do futebol ou as últimas notícias. Troçamos das "selfies" deles, mas sentimos um formigueiro nos dedos quando não conseguimos partilhar imediatamente um vídeo com alguém. Queixamo-nos de que se distraem com facilidade, mas mesmo no cinema vamos nervosamente consultando o ecrã.  

 

Ou seja, agimos como se algures naquele buraco negro virtual pudesse estar a surpresa que nos mudaria a vida, e assim vamos dando um bocadinho cabo da cabeça e das nossas relações, mas também nos divertimos, aprendemos, falamos com quem está longe e, vitória, deixámos de precisar de estar agrilhoados ao escritório e à secretária, numa liberdade inimaginável.

 

E é por isso que os nossos filhos nos imitam, com os telefones que lhes oferecemos e de que pagamos as contas. Fazem o que veem fazer, com mais intensidade, mais competência, mais adrenalina, que secretamente invejamos.

 

Por isso, poupem-me. Ou somos os primeiros a provar que é possível viver com menos telemóvel, e ensinamos as vantagens de viver assim, ou só nos resta deixar os mais novos em paz. Até porque, em breve, "o novo in vai ser off", como li algures, e quem vai sofrer os sintomas da abstinência seremos nós, porque eles já vão estar noutra.

 

Nota de rodapé - Se tiver oportunidade veja o documentário "Offline is the new luxury":

 

(https://topdocumentaryfilms.com/offline-new-luxury/)

 

Jornalista

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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Trent Há 4 dias

Benditos telemóveis, escuso de ver gente.