Avelino de Jesus
Avelino de Jesus 11 de dezembro de 2016 às 18:50

O novo plano de exuberância para a CGD 

Se dermos crédito ao revelado ficamos a saber que os accionistas da Caixa apostam num insensato regresso ao período de exuberância financeira do período anterior à crise.

Depois de longas semanas de incerteza sobre a CGD, em que quase todos se entretiveram exclusivamente com os ordenados e o património da administração, o Jornal de Negócios revelou, finalmente, no passado dia 7 de Dezembro, alguns dos elementos do que será "o plano para pôr o banco a dar lucro". Entre outros elementos de interesse, citou valores para os lucros, margem financeira, comissões e juros para o horizonte do plano: quatro anos, de 2017 a 2020. Outro jornal, o Expresso, revelou também números interessantes, nomeadamente para o produto bancário.

 

Infelizmente, poucos se interessam por estas informações que, apesar de escassas, já dão indicações suficientes sobre o que se pretende para a Caixa.

 

Se dermos crédito ao revelado ficamos a saber que os accionistas da Caixa apostam num insensato regresso ao período de exuberância financeira do período anterior à crise.

 

Vejamos algumas das intenções reveladas pelo Jornal de Negócios e Expresso contrapondo-as com o contexto geral da actividade da CGD.

 

Lucros

 

Atingirão o valor de € 670 milhões em 2020. Desde 2001 até 2015, só em dois anos - 2006 e 2007, em pleno auge da exuberância financeira - se atingiram valores superiores. Em três anos (2010 a 2013), o lucro situou-se próximo, mas ligeiramente abaixo do lucro previsto para 2020. Nos restantes 10 anos, a CGD ou deu lucros substancialmente abaixo (cinco anos) e deu mesmo prejuízos (últimos cinco anos). Em média, nos últimos 15 anos o lucro foi de € 276 milhões. Entre 2001 e 2010, período com lucro, este foi em média de € 577 milhões e no período 2011-2015 os prejuízos médios foram de € 326 milhões.

 

Margem financeira

 

Aumenta € 400 milhões até 2020. Em 2015, foi de € 1.114 milhões. Pelas contas do plano será então em 2020: € 1.514 milhões. A média foi de € 1.425 entre 2001 e 2015, de € 1.537 milhões em 2001-2010 e € 1.198 milhões em 2011-2015.

 

Comissões

 

Aumentarão € 150 milhões até 2020. Eram € 642 milhões em 2015. Em 2020 serão, de acordo com o plano, € 792 milhões. A média 2001-2015 foi de € 527 milhões. O máximo entre 2001 e 2015 foi de € 680 milhões em 2013.

 

Produto bancário

 

Outro jornal, o Expresso, revelava, em 3 de Dezembro, que o plano propõe para o produto bancário (volume de negócios): "Um crescimento de 15% durante cada um dos quatro anos." Ora o produto bancário da CGD desceu 34% entre 2010 e 2015, correspondendo a um reajustamento geral do sistema depois dos excessos anteriores à crise. Um tal aumento previsto no plano revela a intenção de voltar aos velhos tempos. No sistema bancário português, entre 2010 e 2015, houve uma quebra do produto de 22%; a aparente estabilização em 2014 e 2015 foi, porém, interrompida com nova quebra de 12% no 1.º semestre de 2016.

 

Remuneração dos depósitos

 

A remuneração dos depósitos deverá baixar de mais de 0,6% para 0,2%. Aposta-se nos juros nulos e negativos e o apoio à poupança dos portugueses é liminarmente descartado.

 

O plano parece partir desta ideia: o período pós-crise foi um acidente que está em vias de ser resolvido. A crise pode ser "revertida" e voltaremos ao período de exuberância anterior com um acrescento "positivo": os juros baixos e/ou negativos.

 

Mas, a verdade é que não vamos regressar aos velhos tempos. O excesso de finança vai mesmo ser corrigido e os juros de níveis contranatura não durarão muito.

 

Há dois pontos que devem ser enfatizados. Primeiro, o plano não contribui para estabilizar o sistema bancário nacional dado que aposta em novo ciclo de exuberância financeira, retomando o pior do período antes da crise. Segundo, o que se propõe para a CGD não é diferente da prática dos outros bancos que vão ajustando à vista, projectando no curto prazo as tendências recentes em vários aspectos cruciais, nomeadamente os juros baixos ou negativos; a aposta em reduzir para 1/3 as remunerações dos depositantes é disso uma boa ilustração.

 

Economista e professor do ISEG

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mais votado JCG 12.12.2016

Ó Jesus, que arrazoado tão pobre! parece uma manipulação ou manuseamento de estatísticas ou números feitos por um aluno rasca do ensino secundário.

Bom, numa coisa convergimos: na desconfiança em relação às "turmas" do Costa, do Domingos e do Macedo.

Veja-se como o Macedo arranja um grupo de amigos, os quais mais ele próprio - vice-presidente do BCP - se calhar deviam estar todos inibidos por 50 anos do exercício de funções de administração ou de direção, por terem ajudado uns quantos bancos a estoirar, tendo com isso causado danos profundos a milhões de portugueses, com miséria e destruição de vidas para muitos.

Mas em Portugal, neste país faz de conta, quem faz parte das camarilhas do poder nunca é responsabilizado, antes é premiado.

O sistema judicial é uma farsa; as leis são feitas à medida para as elites se protegerem e se servirem.

comentários mais recentes
5640533 13.12.2016

Deve haver dinheiro para pagar também a exuberância nos salarios. Pode parecer assunto menor, mas saíam valentes milhoes todos os meses.

JCG 12.12.2016

Ó Jesus, que arrazoado tão pobre! parece uma manipulação ou manuseamento de estatísticas ou números feitos por um aluno rasca do ensino secundário.

Bom, numa coisa convergimos: na desconfiança em relação às "turmas" do Costa, do Domingos e do Macedo.

Veja-se como o Macedo arranja um grupo de amigos, os quais mais ele próprio - vice-presidente do BCP - se calhar deviam estar todos inibidos por 50 anos do exercício de funções de administração ou de direção, por terem ajudado uns quantos bancos a estoirar, tendo com isso causado danos profundos a milhões de portugueses, com miséria e destruição de vidas para muitos.

Mas em Portugal, neste país faz de conta, quem faz parte das camarilhas do poder nunca é responsabilizado, antes é premiado.

O sistema judicial é uma farsa; as leis são feitas à medida para as elites se protegerem e se servirem.

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