Lucy P. Marcus
Lucy P. Marcus 30 de novembro de 2017 às 14:00

O ópio dos patrões

Líderes como Trump, que valorizam a protecção dos interesses das empresas acima de quase todo o resto, podem encorajar as empresas a acreditar que não têm nada com que se preocupar. Mas têm.

A ética empresarial está novamente a fazer as manchetes. Desta vez, o foco está no quão rápido a crise dos opiáceos está a escalar e a destruir vidas pelos Estados Unidos. Apesar de haver muitos culpados, a maior percentagem de culpa recai directamente sobre os ombros das Grandes Farmacêuticas.

 

O cinismo com que as empresas farmacêuticas encorajaram o uso de medicamentos opióides é chocante. Tendo fornecido pouca análise e supervisão, as empresas distribuem opiáceos amplamente, em conjunto com desinformação sobre o quão viciantes estes são realmente. Depois, seduzem os médicos com incitamentos e prémios – incluindo viagens, brinquedos, chapéus de pesca e, num caso, um cd de música chamado "Get in the Swing with OxyContin" (um dos opiáceos mais populares) – para os prescreverem.

 

Em 2007, vários executivos da empresa principal da Purdue Pharma, que comercializa o OxyContin, confessaram ser culpados de terem enganado médicos, reguladores e pacientes relativamente ao risco de adição associado a este medicamento. A empresa teve de pagar 600 milhões de dólares em multas e sanções.

 

Ainda assim, as Grandes Farmacêuticas estavam irredutíveis. Na década que passou desde então, a distribuição de medicamentos opióides expandeu-se de forma substancial, levando a um rápido crescimento da taxa de adição e de mortes. Vários procuradores gerais estão agora a processar grandes farmacêuticas – incluindo Purdue Pharma, Johnson & Johnson, Endo Health Solutions, Inc., e as suas subsidiárias – por marketing e distribuição dos seus produtos de forma "nefasta e enganadora".

 

Claro que as Grandes Farmacêuticas estão a pisar um caminho que já está gasto. As empresas de energia há muito que são conhecidas por fazerem declarações falsas intencionais sobre as mudanças climáticas. E as empresas mineiras e as empresas produtoras, seja de vestuário ou de tecnologia, têm feito persistentemente vista grossa às condições terríveis, mesmo abusivas, que os seus trabalhadores enfrentam.

 

Em 1994, foram revelados os chamados Cigarette Papers, cerca de quatro mil páginas de documentos internos da tabaqueira Brown & Williamson, que mostraram que o sector, durante anos, fez campanhas públicas negando as qualidades viciantes da nicotina e os riscos para a saúde de fumar, apesar das pesquisas realizadas pela indústria mostrarem outra coisa. Este ano, novas investigações, incluindo da Organização Mundial de Saúde, mostram que as principais empresas de tabaco, incluindo a Philip Morris, continuaram a usar táticas ilícitas para avançar os seus interesses empresariais, à custa da saúde pública.

 

Tudo isto mostra a falha fundamental do argumento que uma desregulamentação em larga escala, como advoga o presidente dos EUA, Donald Trump, beneficia a sociedade. Sim, eliminar a regulação pode ajudar as empresas a aumentar os seus lucros. Mas a que custo?

 

Por exemplo, a epidemia opióide tornou-se num fardo pesado para o governo norte-americano (e, por conseguinte, para os contribuintes), na medida em que pressiona a aplicação da lei e o sistema de saúde. E isso nem sequer inclui os custos suportados pelas vítimas da epidemia, pelas suas famílias e comunidades. Mesmo os agentes funerários enfrentam novos riscos e desafios, dado que têm de lidar com os familiares das vítimas de overdose para o tratamento seguro dos corpos das vítimas.

 

Entretanto, as empresas que tão alegremente enriqueceram os seus executivos e accionistas enfrentam poucas, se é que enfrentam algumas, reacções às suas actividades ilícitas ou anti-éticas. E mesmo quando enfrentam, as outras companhias ou indústrias parecem que não aprendem nada com isso – ou pior, aprendem as lições erradas.

 

A lição que as farmacêuticas parecem ter aprendido com os desafios da Big Tobacco foi a esconder melhor as suas actividades, em vez de fazerem melhor. Talvez assumam que vão ter mais margem porque também produzem medicamentos que salvam a vida das pessoas.

 

A boa notícia é que a pressão sobre as empresas está a aumentar, nomeadamente devido ao facto de alguns investidores estarem a ficar inquietos. No mês passado, uma coligação de sindicatos, fundos públicos de pensões, tesoureiros estatais e outros, criaram a Investors for Opioid Accountability (investidores pela responsabilização opióide). Colectivamente têm 1,3 biliões de dólares em activos, e os membros desta coligação pretendem escrutinar as acções dos membros do conselho de administração de forma a fortalecer a responsabilização e encorajar uma liderança independente dos conselhos de administração.

 

Milton Friedman, laureado com o prémio Nobel da economia, argumenta que a única responsabilidade social das empresas é maximizar os lucros. Mas, quando os esforços das empresas para criar valor para os accionistas leva a consequências com tão elevado alcance – ou "externalidades", na linguagem dos economistas – para o resto da sociedade, o argumento de que o interesse próprio promove avanços sociais cai por terra.

 

Os médicos estão obrigados pelo juramento de Hipócrates a não fazerem mal e a defender a ética médica. Mas as empresas também têm uma grande capacidade para fazer mal e os investimentos nas iniciativas corporativas de responsabilidade social ou nos projectos das comunidades fazem pouco ou nada para mitigar o mal ou para compensar as violações éticas. Se as estratégias empresariais dos gestores não reflectem a responsabilidade social da empresa – ou pior, dependem ou ignoraram-na – eles têm de ser responsabilizados, tal como os médicos desonestos são (ou deviam ser).

 

Líderes como Trump, que valorizam a protecção dos interesses das empresas acima de quase todo o resto, podem encorajar as empresas a acreditar que não têm nada com que se preocupar. Mas têm. Como mostra a crise norte-americana dos opiáceos, esta mentalidade pode inevitavelmente levar ao aumento do número de pessoas directamente prejudicadas pelo comportamento das empresas. E essas pessoas não se podem dar ao luxo de ignorar os danos infligidos ao ambiente, comunidades e famílias.

 

Lucy P. Marcus é a CEO da Marcus Venture Consulting.

 

Copyright: Project Syndicate, 2017.
www.project-syndicate.org

Tradução: Ana Laranjeiro

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