Fernando  Sobral
Fernando Sobral 20 de dezembro de 2016 às 21:05

O país da Cornucópia

John Kenneth Galbraith dizia que os artistas não sabem nada de economia e que os economistas não sabiam nada de arte e assim estavam condenados a não dizer nada uns aos outros. Era um manifesto exagero.

Mas poucas vezes, como hoje, parecem cada vez mais distantes os caminhos da arte e da cultura e os do poder, seja político ou económico. A própria sociedade parece ter empurrado a cultura para o seu velho reduto elitista: consome-se menos livros ou teatro e mais televisão e redes sociais. E, no ensino, a lógica filosófica de questionar foi substituída pela formatação da utilidade funcional. É o reflexo de uma tendência que se tem vindo a agudizar desde o início deste século: os cidadãos transferiram todas as competências para o Estado e para o mercado. Mas isso levou a que o contrato assente na democracia liberal se tenta esboroado. Não é algo que espante: no seu tempo William Shakespeare deparou-se com a mutação económica da sociedade e teve de enfrentar os desafios de um mundo que passava a estar dependente das trocas comerciais através do mercado. A cultura de massas é hoje hegemónica e os cidadãos passam cada vez mais tempo a olhar para o ecrã de um telemóvel do que a ler um livro. A superficialidade pós-moderna tornou-se determinante neste mundo onde a esquerda e a direita se diluíram. E o choque de ideias foi substituído pelo primado da técnica.

 

É neste mundo que a Cornucópia acaba. Por muitos motivos, onde o principal não é o da falta de subsídios. A Cornucópia foi, durante décadas, o símbolo de um regime. Foi mesmo um dos seus alibis culturais. Quanto mais se foi desinvestindo na cultura mais se celebravam ícones, para tentar demonstrar que a cultura portuguesa estava viva. E ela está, mas é nas margens e no mundo subterrâneo. Numa altura em que é cada vez mais visível o regresso ao fosso entre elites (políticas, económicas, culturais) e a massificação, a Cornucópia deixou de ser um oásis: passou a ser um museu onde se acomodam culpas várias. Agora acabou uma era. Como uma tragédia mal contada.

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mais votado Anónimo 21.12.2016


CORTAR JÁ, NAS PENSÕES ATUAIS DOS LADRÕES FP / CGA

Os beneficiários da CGA não descontaram nem para metade da pensão que recebem.

O buraco anual de 4 600 milhões de €, da CGA, é sustentado pelos impostos cada vez mais altos suportados pelos trabalhadores e pensionistas do privado.

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Anónimo 21.12.2016


CORTAR JÁ, NAS PENSÕES ATUAIS DOS LADRÕES FP / CGA

Os beneficiários da CGA não descontaram nem para metade da pensão que recebem.

O buraco anual de 4 600 milhões de €, da CGA, é sustentado pelos impostos cada vez mais altos suportados pelos trabalhadores e pensionistas do privado.

pertinaz 21.12.2016

ACABOU E ACABOU BEM... DE ACORDO COMO SEU FUNDADOR !!!