Fernando  Sobral
Fernando Sobral 06 de julho de 2017 às 20:25

O país de Pedrógão e Tancos

A dívida é o espelho de Portugal, das suas ilusões e desvarios. Porque ela simboliza, como mais nada, a forma como se tem governado, de forma extractiva, o país.

Em 1916, nas páginas da revista "Atlântida", Anselmo de Andrade escrevia sobre o calcanhar de Aquiles de Portugal, a dívida: "Dos países mais endividados, Portugal, se não é o decano, também não foi o que mais se atrasou em se servir do crédito público. Cedo se lhe afreguesou, e tão devotada e insistentemente, que nunca mais deixou de prestar culto a essa divindade dos interesses materiais". A dívida é o espelho de Portugal, das suas ilusões e desvarios. Porque ela simboliza, como mais nada, a forma como se tem governado, de forma extractiva, o país: os parcos recursos são geridos por uma pequena minoria que esbanja o que existe. E não destrói apenas a riqueza privada, faz o mesmo com o erário público. Sempre com um pé no abismo, o país vê criarem-se pilhas de riqueza de alguns, feitas à base de cumplicidades, troca de influências, delapidação de recursos, usufruto dos impostos. Alguma chamada elite fez um contrato de comodato distorcido com Portugal: parece que arrendou o país que não lhe pertence e colhe os benefícios disso. O desastre dos incêndios e o roubo de material de guerra de Tancos são danos dolorosos mas colaterais desta política de ocupação do Estado para benefício de alguns.

 

A luta de poder em Portugal (entre a elite cosmopolita que quase sempre governou e uma que ascendeu ao poder desde o tempo do cavaquismo) está a chegar ao fim nestes tempos do novo capitalismo de plataforma, que está a transformar a sociedade para pior. Os anos da austeridade serviram para culminar esse verdadeiro golpe de Estado social. Instalou-se uma nova ideologia: a da aceitação da pobreza.

 

Esse foi o resultado do empobrecimeto da pobreza, normalizando a sensação de que é normal que as pessoas passem mal. A destruição dos sonhos da classe média portuguesa fez parte disso. Por detrás do novo "boom" do turismo, do imobiliário e do aumento das exportações, este nivelamento por baixo ficou. Materialmente e nas mentes das pessoas. Mesmo disfarçada por um optimismo necessário, transmitida por Marcelo e por António Costa. O Portugal pós-crise é o deste país em que o minifúndio de proprietários que só olham para as suas parcas terras como uma fonte de rendas (e que por isso plantam o mais rápido dos investimentos com retorno: o eucalipto) e das torres de vigia sem soldados em Tancos. Ou o dos hospitais onde antigamente haviam seis analistas e agora só existem três ou das escolas sem assistentes por falta de verba. A pobreza está aqui. Nua.

 

O fim do contrato social fez-se muito rápido em Portugal. Porque aqui o Estado social chegou também tarde demais. Vivemos 20 anos com ele. Numa altura em que se vão esvaindo as certezas de que a economia de mercado, com a demolição do Estado e a sua colocação num espaço de poder mínimo, levaria a uma democracia liberal sem problemas apesar da chacina do valor do trabalho, as feridas da nossa doença eterna (a dívida) mostram a essência do país. Portugal precisa, por estes dias, de uma reformulação de ideais, depois de termos sido encorajados (por quem tinha uma verdadeira agenda ideológica) que os conflitos ideológicos tinham desaparecido. A pobreza do país, patente em Pedrógão Grande e Tancos, mostra que isso não é verdade. 

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