Fernando  Sobral
Fernando Sobral 24 de janeiro de 2017 às 19:45

O país dos consensos

Calígula, que acreditava ser a reencarnação de Apolo, não acreditava em consensos. Nem, claro, na chamada concertação social. Em Roma, gastou dinheiro sem fim para perpetuar a sua grandeza.

Foi assim que as arcas do império ficaram vazias. Em pânico, decidiu então criar novos impostos que arruinaram pobres e ricos. O Portugal da última década parece o reinado de Calígula: um gastou até à penúria, o outro (com o beneplácito do protectorado da troika) deixou os portugueses sem um tostão. É por isso que o debate à volta da importância da concertação social acaba por ser minado. Todos parecem, em nome de um consenso que não é real, dançar num baile de máscaras. Em que todos se podem fazer de vítimas, do Governo à oposição, dos empresários aos sindicatos. No fundo tudo se reconduzia a um "trade-off" muito típico dos brandos costumes nacionais: aumento do salário mínimo em troca do abaixamento da TSU. Calígula organizou, no seu tempo, os melhores jogos no Coliseu com os mais reputados gladiadores. António Costa quis ganhar o euromilhões do consenso nacional com um acordo onde todos saíam a ganhar. Todos menos o BE, o PCP e o PSD. Os primeiros porque não poderiam atribuir a si próprios o aumento do salário mínimo às suas pressões. O segundo porque o acordo era um sinal de que, em troca de nada, seria uma espécie de idiota útil do consenso nacional.

 

Com a prova de vida de Passos Coelho voltou-se à política pura e dura no país. Não é que, rapidamente, não se volte a um consenso alternativo, com uma mudança do que se oferece aos empresários para que assinem um pacto que BE e PCP também apoiem discretamente. É certo que vivemos tempos de aparente reconciliação nacional, sob a batuta de Marcelo Rebelo de Sousa, depois da crispação radical que Passos Coelho levou até ao extremo, desde o tempo da troika em que dividiu o país e o estilhaçou completamente. O resultado desse desvario ainda se sente hoje. As rupturas em Portugal sempre foram dolorosas. Por isso, somos o país das meias-tintas. Como vamos ser mais uma vez. 

 

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