Fernando  Sobral
Fernando Sobral 10 de outubro de 2017 às 19:36

O país Peter Pan

A sociedade portuguesa vive alegre com o seu complexo de Peter Pan. Não quer crescer. Pior: envelhece e julga continuar jovem, como Dorian Gray.

Se uma imagem capturasse o espírito do tempo, a sociedade portuguesa seria uma estátua de sal. A austeridade foi objecto de uma reciclagem e desfila agora na Moda Lisboa como se fosse uma nova tendência. Esse foi o grande mérito deste Governo: fez com que os portugueses deixassem de acreditar na austeridade e que Madonna, Cristiano Ronaldo e as agências de "rating", transformadas em anjos, nos salvariam. Algo mudou. Mas, na essência este país continua refém dos seus medos, da sua desorganização e da incompetência. Olhe-se para o que está a acontecer no transporte fluvial entre Lisboa e Barreiro, com um caos nunca visto porque falta um barco ou dois e é-se incapaz de escoar os passageiros de uma margem para a outra. Num país civilizado, a administração da Soflusa já se teria demitido. Por vergonha. Ou tinha sido removida. Mas lá continua, à espera que um barco saia da reparação. Pedindo aos passageiros que demandam Lisboa para trabalhar, que não venham entre as 8 e as 9 da manhã. Já se pensou no que a incompetência e a falta de investimento estão a fazer, em termos de custos, à economia nacional por causa deste súbito eclipse de barcos comprados para fazer o trajecto em 15 minutos e que agora o fazem em 25 minutos?

 

Parece uma brincadeira, mas é verdade. O trajecto entre Lisboa e Barreiro faz-se quase no mesmo tempo em que se fazia há 50 anos (demorava 30 minutos então, num barco muito velhinho sem vidros nas janelas). A austeridade fez-nos recuar. A "nova situação" faz-nos acreditar que tudo mudou. É por isso que é fascinante, ao mesmo tempo, a preocupação do PCP e do BE com a carreira dos funcionários públicos e dos seus direitos, esquecendo o resto dos trabalhadores. Seguindo o princípio de Passos Coelho de dividir para reinar, porque uns são mais iguais do que os outros. É por isso que qualquer dia este teatro político não tem espectadores.

 

Grande repórter

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