Santiago Levy
Dani Rodrik
Santiago Levy | Dani Rodrik 05 de setembro de 2017 às 14:00

O paradoxo do México

O México mostrou que as estratégias de crescimento bem-sucedidas não podem ser construídas em cima de modelos já desenhados. Em vez disso, exigem reformas que sejam específicas para o país.

Poucas economias representam um paradoxo tão grande quanto a mexicana. Saindo de uma série de crises macroeconómicas, que ocorreram em meados da década de 1990, o México empreendeu reformas ambiciosas que deveriam tê-lo colocado no caminho do rápido crescimento económico. Foi prudente em termos macroeconómicos, liberalizou as suas políticas económicas, assinou o Acordo de Comércio Livre da América do Norte (NAFTA), investiu em educação e implementou políticas inovadoras para combater a pobreza.

 

Em muitos aspectos, estas reformas compensaram. Foi alcançada a estabilidade macroeconómica, o investimento interno aumentou em dois pontos percentuais do PIB e, em média, o nível de educação cresceu em quase três anos. Talvez os ganhos mais visíveis tenham sido obtidos na frente externa. As exportações subiram de 5% para 30% do PIB e o investimento directo estrangeiro, em percentagem do PIB, triplicou.

 

Mas no que conta – no crescimento económico e no aumento da produtividade – a história é de desapontamento. Desde 1996 que, em média, o crescimento económico per capita está consideravelmente abaixo dos 1,5% e a produtividade total estagnou ou caiu.

 

Se alguma vez existiu um país que estava destinado a ser o paradigma da nova ortodoxia do desenvolvimento económico, esse país era o México. Em vez disso, o país ficou atrás, mesmo dos seus pares da América Latina. Porquê?

 

Grande parte da resposta a esta questão está relacionada com o extremo dualismo da economia mexicana – um problema que tem vindo a ser chamado de "dois Méxicos". Grande parte dos trabalhadores mexicanos continua a estar empregada em empresas "informais" – em especial em firmas em que os empregados não têm contratos salariais – onde a produtividade é apenas uma fracção da produtividade registada pelas companhias modernas que estão integradas na economia mundial.

 

O que é surpreendente é que este dualismo piorou durante o período em que o México liberalizou as reformas. Uma investigação levada a cabo por um de nós (Levy) mostra que as companhias informais absorvem uma percentagem crescente dos recursos económicos. No sector informal, entre 1998 e 2013, o crescimento cumulativo do emprego disparou para 115%, o que compara com a subida de 6% registada na economia formal. Em termos de capital, o aumento cumulativo foi de 134% no sector informal e de 9% no sector formal.

 

O México não aparenta ter falta de dinamismo económico. Um número considerável de novas empresas é a principal fonte do crescimento do emprego. Mas este movimento não parece ser do estilo que leva a melhorias na produtividade total.

 

As evidências mostram que muitas empresas com baixa produtividade sobrevivem, enquanto companhias com elevada produtividade morrem. A heterogeneidade de produção, e a má localização dessa produção, têm vindo a crescer tanto no comércio como nos serviços e na produção.

 

Não é totalmente claro porque é que as mudanças estruturais, perversamente, reduziram o crescimento. Uma explicação possível reside no sistema paralelo de segurança social no México. As empresas e os trabalhadores do sector formal têm de pagar pelo seu seguro de saúde, pelas pensões e por outros benefícios dos empregados. Mas, dado que os trabalhadores desvalorizam estes benefícios, o resultado é que se tratam de impostos para o emprego formal.

 

Por outro lado, quando as firmas e os funcionários são informais, os trabalhadores recebem um pacote semelhante de benefícios em termos de saúde e de pensões, mas de graça. O resultado é que o emprego formal é inadvertidamente penalizado enquanto o trabalho informal é subsidiado.

 

Outra possibilidade, que pode acompanhar a primeira, é a rápida abertura do México às importações, que dividiu a economia entre um pequeno número de empresas, avançadas tecnologicamente e que concorrem globalmente, e um segmento crescente de empresas, em particular na área dos serviços e do comércio a retalho, que servem como uma fonte residual de emprego. Na ausência de políticas de desenvolvimento da produtividade, como aquelas que foram implementadas no leste asiático, as empresas modernas podem não ter sido capazes de crescer suficientemente rápido. Os beneficiários da globalização são tipicamente aqueles países que a complementam com uma estratégia para promover novas actividades, políticas que favorecem a economia real sobre a finança e reformas sequenciais que enfatizam o emprego de alta produtividade.

 

Independentemente de qual destas histórias esteja correcta, parece claro que o problema do crescimento do México não é resultado de instabilidade macroeconómica, da ausência de concorrência estrangeira ou da falta de capital humano. De facto, o retorno da educação tem estado a cair em parte devido à oferta de trabalhadores qualificados, que superou a procura, dado que a maioria das empresas informais não os querem.

 

No fim, os efeitos das reformas focadas na eficiência foram ofuscados pelos factores que sistematicamente canalizam demasiados recursos para as companhias informais – políticas de segurança social e as imperfeições de mercado – e criam obstáculos às empresas formais. Dada a retórica inflamada do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a discussão no México é compreensivelmente à volta da renegociação do NAFTA. Mas se os políticos estão a evitar falhar nessas negociações, depois do processo estar completo têm de voltar a sua atenção para os factores estruturais que estão a deprimir o crescimento do México.

 

Há aqui duas lições para outros países em desenvolvimento. Em primeiro lugar, durante muito tempo, estas economias estiveram obcecadas com a abertura ao comércio internacional, com a atracção de investimento directo estrangeiro, com a liberalização dos preços e com alcançar a estabilidade macroeconómica. Estas reformas funcionam, tipicamente em conjunto com outras, quando são promovidas transformações estruturais que promovam a produtividade. Quando não o fazem, ou quando outras políticas perversamente as contrariam, os resultados vão ser desapontantes.

 

A segunda lição é que esses países precisam de prestar muita atenção à forma como as políticas de segurança social afectam o comportamento das empresas e dos trabalhadores. Boas intenções à parte, o resultado pode ser que o segmento da economia com produtividade baixa seja subsidiado, enquanto o segmento com elevada produtividade é taxado.

 

O México mostrou que as estratégias de crescimento bem-sucedidas não podem ser construídas em cima de modelos já desenhados. Em vez disso, exigem reformas que sejam específicas para o país e que retirem os obstáculos actuais à expansão dos sectores modernos e das políticas sociais que são compatíveis com a transformação estrutural.

 

Santiago Levy é vice-presidente para a área de sectores e conhecimento do Inter-American Development Bank. Anteriormente, já tinha sido economista-chefe. Dani Rodrik, é professor de Economia Política Internacional na John F. Kennedy School of Government de Harvard, e é o autor do livro Economics Rules: The Rights and Wrongs of the Dismal Science.

 

Copyright: Project Syndicate, 2017.
www.project-syndicate.org

Tradução: Ana Laranjeiro

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