José Macário automotor 20 de novembro de 2017 às 22:12

O "pivot" da política europeia

As conversações para o estabelecimento de um governo liderado por Merkel e apoiado pela coligação Jamaica ruíram sobre a falha tectónica da imigração.

A FRASE...

 

"Auf wiedersehen, Jamaica, olá, incerteza."

 

Barclays, Instant Insight, 20 de novembro 2017  

 

A ANÁLISE...

 

A Europa comunitária - a do mercado único e do euro - suporta tudo menos o enfraquecimento do comprometimento (político e financeiro) da Alemanha com a missão histórica de preservação da paz no Velho Continente que lhe foi confiada no pós-guerra. Até agora, a Alemanha tem sido uma exceção na deriva populista que tem varrido a Europa, circunstância que por si só justifica a quase ausência de volatilidade nos mercados financeiros em reação aos riscos em torno das passadas eleições na Holanda e em França. Na verdade, porém, a imaculidade germânica foi manchada pelo significativo avanço do partido de extrema-direita (AfD) e pelo recuo das forças centristas e europeístas da CDU e do SPD nas eleições de setembro, situação que não teve grande eco devido à expectativa de formação de uma qualquer coligação dentro do arco da governação, que garantisse o essencial da ortodoxia política alemã, incluindo o inabalável compromisso com o projeto de integração europeia. Com a autoexclusão do SPD de uma eventual solução de governo após a humilhante derrota, a chanceler Merkel apostou na formação de uma aliança tripartida com os Verdes (esquerda) e o FDP (liberais), conhecida por coligação Jamaica.

 

No entanto, as conversações para o estabelecimento de um governo liderado por Merkel e apoiado pela coligação Jamaica ruíram sobre a falha tectónica da imigração, com os liberais do FDP a exigirem mais controlos na entrada de refugiados e os Verdes, menos. Daqui decorre que a imigração (e o antieuropeísmo que lhe está associado) se tornou o "pivot" da política na Alemanha, à semelhança do que já ocorreu em tantos outros países ocidentais. Isso são más notícias para a Europa, sobretudo se forem necessárias novas eleições para desbloquear o impasse, uma vez que nesse caso serão os temas mais caros aos populistas aqueles que determinarão quem governa (e como), pelo que é de esperar uma derivação populista mesmo por parte dos partidos tradicionais - com prejuízo para os refugiados e para o projeto europeu.

 

Artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

 

Este artigo de opinião integra A Mão Visível - Observações sobre as consequências directas e indirectas das políticas para todos os sectores da sociedade e dos efeitos a médio e longo prazo por oposição às realizadas sobre os efeitos imediatos e dirigidas apenas para certos grupos da sociedade.

maovisivel@gmail.com

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