Fernando  Sobral
Fernando Sobral 19 de abril de 2017 às 20:30

O plano quinquenal

O Programa de Estabilidade é o nosso delicodoce plano quinquenal. É menos ambicioso do que os melhores planos soviéticos que faziam previsões nem sempre muito sensatas sobre as lâmpadas que se iriam produzir ou os cereais que seriam colhidos.

O Programa de Estabilidade faz-nos felizes e funciona como uma espécie de ida ao professor Xicória. As suas previsões, como se sabe, podem realizar-se. Ou não. Mas, no fundo, o Programa de Estabilidade tem a vantagem de ser optimista num país pessimista. Sempre o foi e não era agora que iria defraudar as expectativas dos portugueses. Ele serve-nos para contrabalançar as previsões sempre arrepiantes do FMI ou da Comissão Europeia ou das agências de "rating". Às vezes até surge, como agora, num momento em que o FMI engole um sapo e tem de concordar com o Governo, dizendo que as perspectivas para 2017 são melhores do que julgava possíveis há apenas três meses. Se o FMI fosse pistoleiro nos filmes de Hollywood, há muito estaria desempregado.

 

Nesta nova versão de previsões, o Governo apresenta um plano quinquenal semelhante a um País das Maravilhas. Está no seu direito. Afinal, Mário Centeno tinha experiência no Banco de Portugal a fazer estudos e previsões. Nada como ter videntes profissionais no Terreiro do Paço. De resto estamos habituados à escola do Banco de Portugal nas Finanças e, nisso, Centeno não é o oposto de Vítor Gaspar. Basta olhar para a linguagem do Programa de Estabilidade. Em certos momentos ficamos com a sensação de que a prosa garbosa e iluminada poderia ter sido escrita por Gaspar ou Maria Luís. Talvez por isto esta tenha ficado afónica nos últimos dias: não há como criticar este PE, que poderia, mesmo nos momentos mais frenéticos de fervor no crescimento, ter sido dactilografado pelos antigos ministros das Finanças. É claro que há diferenças: o plano de Centeno tem uma lógica, ao contrário do que era a prática multiconfusões de Maria Luís. Mas não deixa de ser uma previsão. Que entra em curto-circuito com o primeiro trovão.

 

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comentários mais recentes
Anónimo Há 2 dias

No mundo desenvolvido, só praticamente em Portugal é que existe de forma tão ridiculamente desenvergonhada e absurda este falso sentido de auto-elegibilidade caracterizado pela ilusão pedante e intelectualmente desonesta de julgar, que quando alguém sai do sistema de ensino, o Estado tem de garantir uma carreira assalariada vitalícia ao cidadão, e que esse mesmo Estado reduzido ao dúbio estatuto de empregador directo ou indirecto do povo, e não as condições de oferta e procura de mercado, tem automaticamente que providenciar tanto mais remuneração quanto maiores forem as habilitações literárias do tal cidadão. Isto porém não passa de um falacioso pensamento atrofiado e atrofiante para a inovação, o progresso social, o crescimento e desenvolvimento económico e o avanço civilizacional que é diametralmente oposto ao praticado nas economias e sociedades mais prósperas e avançadas do mundo, da América do Norte à Escandinávia, dos Países Baixos e Reino Unido à Austrália e Oceania.

Mr.Tuga Há 2 dias

Certissimo!