Lucy P. Marcus
Lucy P. Marcus 23 de outubro de 2017 às 14:00

O poder da cidadania activa

Muitos questionaram porque é que os jogadores de futebol americano, que geralmente ganham milhões de dólares por temporada, estão a protestar contra uma injustiça. A razão é simples: cidadania activa significa lutar pelo que acreditamos, seja um governo livre de corrupção ou o cumprimento da lei livre de racismo.

O Congresso de Sindicatos Sul Africanos, a maior organização de trabalhadores do país, realizou recentemente aquilo que ficou conhecido como a maior manifestação popular desde o fim do apartheid, um protesto devido à corrupção crónica e à captura do Estado. Na Moldávia, os cidadãos continuam a protestar contra uma lei eleitoral controversa que favorece os dois grandes partidos políticos do país, à custa dos pequenos movimentos. Nos Estado Unidos, jogadores profissionais de futebol ajoelharam-se durante o hino nacional para chamar à atenção para a violência policial exercida contra as pessoas negras.

 

Por mais diferentes que estes exemplos de manifestações públicas sejam, eles têm uma coisa em comum: reflectem os esforços dos cidadãos comuns para responsabilizarem não apenas os seus governos mas também as empresas e outras instituições. Tais acções, e o direito dos cidadãos em organizá-las e participar, são essenciais para uma sociedade democrática, em especial durante tempos tumultuosos.

 

Não há dúvida que estes são tempos tumultuosos. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un, têm tido uma retórica incendiária, levando muitos a temer uma guerra na Península da Coreia – e talvez um confronto nuclear. Os desastres naturais de larga escala – furacões em Porto Rico, cheias no Sul da Ásia, terramotos no México – geraram danos enormes e perdas de vidas, e a assistência para estes casos não é suficiente.

 

Além disso, escândalos de corrupção emergiram na África do Sul, mas também no Brasil e na Coreia do Sul. Ainda assim, por todo o mundo, as ligações entre os negócios e os governos continuam complexas, próximas e opacas. Os populistas de extrema-direita alcançaram grandes progressos nas democracias ocidentais - o caso mais recente foi na Alemanha. E, durante todo este tempo, a desigualdade de rendimentos continua a crescer.

 

Perante este cenário, é fácil ver porque é que pessoas comuns se sentem cada vez mais impotentes. Mas é nos tempos mais difíceis que mostramos quem somos realmente. E, desde os pequenos gestos entre vizinhos aos grandes contributos dados por empresas para ajudar nos esforços de socorro, há imensas histórias de humanidade, individualidade e institucionalidade, que dão motivos para se ter esperança. De facto, tais acções, e o sentido de responsabilidade pessoal que reflectem, são o que permitem às sociedades progredir e prosperar.

 

Como bem sabemos, não se pode confiar que os membros dos governos e os empresários façam o que é correcto, sem que haja regras e responsabilização. Além disso, dada a sua influência sobre a política e a economia, as suas falhas éticas e morais têm consequências de largo alcance.

 

Apesar de ser geralmente consensual que os governos têm de ter os padrões éticos mais elevados (se não estiverem implementados), muitos argumentam que as empresas devem ser livres para perseguir o lucro a qualquer custo. Contudo, tal como os governos, as empresas, em última análise, são geridas por pessoas e para servirem pessoas; têm, por conseguinte, de ser responsáveis por pessoas.

 

A chave para que esta responsabilidade seja assumida é a cidadania activa. Ensinada nas escolas por todo o mundo, desde o Canadá ao Reino Unido, a cidadania activa significa participação política a todos os níveis. Não é apenas uma boa ideia; é um conceito dinâmico e vital que os indivíduos, as organizações e as instituições devem colocar em prática todos os dias.

 

O carácter da cidadania activa aplica-se em todas as esferas. Não há muito tempo, ao falar sobre uma questão controversa num encontro do conselho de administração, senti que era importante notar que eu estava a falar não apenas enquanto membro do conselho de administração, mas também enquanto pessoa. Contudo, esse reconhecimento, por mais banal que possa parecer, serviu como uma recordação poderosa de uma lição mais importante: uma pessoa deve manter a noção do que é certo e do que é errado, independentemente das circunstâncias.

 

Convencermo-nos de que uma decisão é puramente pragmática, de forma a evitar questões éticas difíceis, não é uma opção. Se eu, enquanto pessoa, acreditar na protecção do ambiente, ou procurar na minha vida pessoal e no meu negócio proteger a minha privacidade, não posso abandonar essas crenças numa sala de reunião do conselho de administração em nome dos lucros. Evitar uma discussão activa, num esforço para não ter de enfrentar as implicações éticas mais matizadas que possam surgir, não é menos desonesto.

 

Ser um cidadão activo e empenhado significa ser autêntico e empático. Significa considerar não apenas o que é que uma questão significa para nós, individualmente, mas também como é que afecta os outros. Muitos questionaram porque é que os jogadores de futebol americano, que geralmente ganham milhões de dólares por temporada, estão a protestar contra uma injustiça. A razão é simples: cidadania activa significa lutar – ou ajoelhar-se – pelo que acreditamos, seja um governo livre de corrupção ou o cumprimento da lei livre de racismo.

 

O etos da integridade pessoal e da autenticidade pode parecer impotente perante uma ganância selvagem e perante o narcisismo. E, ainda assim, as dificuldades e os tempos difíceis nos quais nos encontramos reflectem a necessidade de colocar mais ênfase, não menos, nos valores que dizemos defender e nas formas que concebemos para aplicar esses valores nas nossas comunidades e países.

 

Lucy P. Marcus é CEO of Marcus Venture Consulting.

 

Copyright: Project Syndicate, 2017.
www.project-syndicate.org
Tradução: Ana Laranjeiro

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mais votado Anónimo Há 4 semanas

Uma vergonha quando comparamos esses exemplos com o que se passa em Portugal. Cidadania activa?! Isso dá muito trabalho. Quem sabe se não nos entalamos depois. E o emprego? E a família? O melhor é ficarmos quietinhos na modorra do nosso sofá a queixarmo-nos entre em privado.

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Anónimo Há 4 semanas

Uma vergonha quando comparamos esses exemplos com o que se passa em Portugal. Cidadania activa?! Isso dá muito trabalho. Quem sabe se não nos entalamos depois. E o emprego? E a família? O melhor é ficarmos quietinhos na modorra do nosso sofá a queixarmo-nos entre em privado.

Mr.Tuga Há 4 semanas

Certo.

Coisa que não existe cá em tugalândia..... CIDADANIA!!