Fernando  Sobral
Fernando Sobral 12 de Dezembro de 2016 às 20:50

O potencial da Tunísia 

Há algum tempo que os dirigentes da Tunísia vêm apelando para a criação de algo semelhante a um Plano Marshall para o país.

Palco do início da chamada Primavera Árabe que tantos sonhos (e pesadelos) trouxe às margens do Mediterrâneo e ao Médio Oriente, a Tunísia é um país fulcral do Magrebe, a que nem sempre se dá a importância devida em Portugal. Mas a sua estabilidade é fundamental em termos geopolíticos para a segurança da Europa. E se aliarmos a isso as ligações histórias que nos ligam a toda a costa africana do Mediterrâneo, talvez às vezes fosse bom dar mais atenção ao que ali acontece. Não deixa de ser curioso que há alguns dias o Presidente tunisino, Béji Caid Essebsi, tenha confirmado que drones americanos de vigilância estão a sobrevoar a fronteira do país com a Líbia para escrutinarem quaisquer potenciais ataques que o Daesh deseje fazer em solo da Tunísia. Trata-se de um tema sensível, porque os opositores do regime podem argumentar que se trata de um rombo na soberania do país. Mas Essebsi sabe que esta cooperação é importante para prevenir possíveis ataques, num momento de grande pressão militar sobre o Daesh.

 

Tudo isto acontece numa altura em que a Tunísia pediu, no âmbito da conferência Tunísia 2020 que se realizou na passada semana, 14 mil milhões de dólares de apoio financeiro. O apelo destinou-se aos participantes (países e instituições financeiras) que fizeram parte do encontro. A ideia é concretizar os sonhos da "revolução" de 2011. Na conferência, estiveram 4.500 convidados e 1.500 parceiros económicos que foram aliciados a participar em mais de 140 projectos que podem estruturar a economia tunisina e criar cerca de 400 mil novos empregos. Ajudando assim o sistema democrático do país. Há algum tempo que os dirigentes da Tunísia vêm apelando para a criação de algo semelhante a um Plano Marshall para o país, algo que se cruza com a estratégia que deveria ter sido seguida há muito pelos países europeus de criação de condições económicas nos países da bacia do Mediterrâneo que evitem a tentação da emigração maciça. Mas a UE sempre tem descurado essa forma de actuar com os desastrosos resultados que estão à vista de todos. Não deixa de ser interessante que, seis anos depois da Primavera Árabe, a Tunísia seja o único país assolado pelas convulsões de então que continua a encarar com solidez a perspectiva de democratização do país. Mas com custos elevados: a instabilidade levou à fuga de 500 empresas desde 2011 e uma quebra muito grande no investimento estrangeiro. As mensagens mais fortes de apoio ao apelo tunisino vieram de França, do Qatar, da Turquia e, ironia, da UE. Ver-se-á o que daqui resulta em termos concretos.

 

Índia: A crise do fim das notas de grande valor

 

Cerca de um mês após o primeiro-ministro indiano Narendra Modi ter anunciado o fim das notas de 500 e 1.000 rupias, no âmbito do seu combate contra a corrupção no país, em Nova Deli começa a ter-se a noção do real impacto da medida. E foram significativas: queda nos rendimentos particulares, actividades económicas a entrar em crise rápida e muitos inconvenientes para milhões de indianos apanhados na batalha. As autoridades garantem que tudo isto será de curta duração, porque os benefícios da medida serão visíveis a prazo. Espera-se que a "desmonetarização" da Índia cause uma forte quebra da actividade económica devido a atrasos nos pagamentos de salários, já que muitos deles são feitos em moeda real. Ao mesmo tempo muitos investidores estrangeiros parecem ter-se retirado do mercado da dívida da Índia, num sinal de desconfiança. A medida também causou apreensões no sector turístico e diplomático devido ao limite de levantamentos em caixas ATM e nos bancos. Ninguém tem dúvidas de que a medida afectou quase todos os sectores da economia indiana e aumentou a pressão política sobre Modi. A sessão de Inverno do Parlamento (que termina a 16 de Dezembro) tem sido posta em causa por discursos inflamados e protestos. A taxa de bens e serviços que deveria ser aprovada para entrar em vigor em Abril está mesmo em causa. E mesmo no partido do primeiro-ministro Modi, o Janata (BJP), as fracturas são já evidentes. Para Modi esta medida vai trazer modernidade ao sector de pagamentos na Índia, ficando menos dependente do "dinheiro vivo", mas até lá o caos ainda está instalado.

 

Armas: Destino Médio Oriente

 

Os EUA aprovaram uma série de acordos de venda de armas a vários países árabes aliados no valor de 7 mil milhões de dólares. O maior contrato foi feito com a Arábia Saudita para a venda de 48 Chinook CH-47F, helicópteros de carga, no montante de 3,5 mil milhões de dólares. Os Emirados Árabes Unidos vão poder adquirir 27 helicópteros de ataque Apache e o Qatar vai comprar oito jactos de carga C-17. Marrocos também vai adquirir 1.200 mísseis anti-tanque TOW 2-A.

 

Hong Kong: Leung não se recandidata

 

É uma notícia inesperada: o "chefe executivo" do governo de Hong Kong, Leung Chun-ying, não se vai recandidatar ao cargo em Março. A razão invocada é poder passar mais tempo com a família. Há quem acredite noutras razões, nomeadamente que Pequim o incentivou a não se candidatar. No cargo desde 2012, Leung recusou-se a dialogar com os fortes movimentos pró-democracia de 2014. E liderou a campanha para evitar dar lugares no Conselho Legislativo a defensores da independência do território. Leal a Pequim estava longe de agradar aos habitantes de Hong Kong, mesmo aos magnatas económicos. Entre os candidatos à sucessão constam o secretário das Finanças, John Tsang, o juiz Woo Kwok-hing e Regina Ip, líder de um dos partidos pró-Pequim.

 

Coreia do Sul: o fim de Park?

 

Com a decisão alargada da Assembleia Nacional da Coreia do Sul de iniciar o processo de "impeachment" da Presidente Park Geun-hye, o espaço de sobrevivência política desta parece cada vez menor. E isso tem que ver não apenas com o caso de corrupção da sua amiga Choi Soon-sil, onde foi envolvida, mas também com a estagnação económica e com o sentimento de frustração dos sul-coreanos, muito visível na imprensa do país. As manifestações sucessivas em Seul também o demonstram. A sua actuação presidencial foi considerada "imperial", mas o maior problema parece ser a possibilidade de um vácuo político no país.

 

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