António Moita
António Moita 05 de fevereiro de 2018 às 20:52

O povo deve andar contente

Não há mesa de café em Portugal onde não se comente a vida dos vizinhos, daqueles que mal se conhecem ou até dos "famosos" que entram em casa de cada um pelas televisões. E normalmente não é para enaltecer as qualidades dos visados.

Este ambiente de desconfiança permanente, apesar de muito marcado pela inveja, traço que aparentemente nos caracteriza, resulta também da incompreensão geral da sociedade perante fenómenos de rápido enriquecimento, negócios mal explicados, acesso a facilidades inusitadas ou outro tipo de benesses de que vamos tendo conhecimento todos os dias. Na linguagem popular, poucos são os que se salientam e que escapam a classificações depreciativas ou injuriosas que vão desde o esperto ao corrupto.

 

Os últimos anos, porventura por efeito da "magistratura de iniciativa" de Joana Marques Vidal e da amplificação da mensagem veiculada por meios de comunicação especializados na valorização das fraquezas humanas, foram marcados por uma presença constante da justiça na agenda social, económica e política. Ninguém escapou ou, numa linguagem mais conforme com o politicamente correto, ninguém parece estar acima da lei.

 

Políticos, empresários, banqueiros, advogados, magistrados e juízes, dirigentes desportivos e profissionais de diferentes ofícios foram confrontados com acusações múltiplas e de gravidade variável. Mal é conhecida a notícia, normalmente através de um título de jornal, surge de imediato a condenação pública. Parece confirmar-se, no fundo, tudo o que se dizia nos cafés do povo ou nos corredores dos centros de poder. Vale a velha máxima de que "não há fumo sem fogo".

 

É certo que os tribunais administram a justiça em nome do povo. É igualmente certo que o povo queira justiça no sentido em que não é possível suportar viver num país em que impere apenas a lei do mais forte ou do mais esperto. Mas nunca nos deveremos esquecer de que, em defesa de todos nós, importa garantir que a administração da justiça se faz com critério, com respeito pelo princípio da legalidade e sem interferência dos interesses mediáticos que tudo querem condicionar. Se assim não for, iremos continuar a ter assunto para as mesas de café durante muitos anos.

 

Jurista

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico