Harold James
Harold James 14 de novembro de 2017 às 14:00

O problema do núcleo duro da Europa

A UE ainda se pode desenvolver, mas apenas se se libertar das prioridades estreitas de França e da Alemanha. O que a Europa precisa agora não é de um núcleo duro, mas de um pensamento consistente.

A eleição do presidente Emmanuel Macron em França e a provável continuação da liderança de Angela Merkel na Alemanha estão totalmente em contraciclo com os desenvolvimentos no resto da Europa, que se tornou cada vez mais instável e imprevisível. Muitos questionam-se se o núcleo duro franco-alemão da União Europeia está a tornar-se demasiado "duro" para o resto do bloco. Se assim for, aqueles que sonham com uma integração europeia "cada vez mais próxima" podem ter que se contentar com um eixo franco-alemão modestamente ampliado.

 

A Europa está a ser despedaçada por forças centrífugas, incluindo o movimento separatista da Catalunha e o impulso mais silencioso em direcção à autonomia nas regiões italianas da Lombardia e Veneto. O populismo de direita está no poder na Hungria e na Polónia, e pode agora ressurgir na Áustria. Os populistas de esquerda governam na Grécia, e o populismo centrista parece estar a ir para a República Checa, onde o magnata Andrej Babiš se tornou primeiro-ministro.

 

Obviamente, a UE está a enfrentar a resposta amarga dos eleitores em todo o espectro político, como sugere o nome do partido triunfante de Babiš, "Acção dos Cidadãos Insatisfeitos". Mas o que não é óbvio é a origem dessa insatisfação.

 

Diz-se frequentemente que o populismo é uma resposta inevitável das vítimas da globalização. Mas esta afirmação é desmentida pelo forte desempenho económico da República Checa, Hungria e Polónia. E não explica porque é que a crise catalã entrou em erupção, numa altura em que Espanha protagoniza uma forte recuperação económica, ou porque é que a Grécia continua a ser vulnerável. Ao mesmo tempo, outro dos culpados do costume, o fluxo de refugiados, tem um álibi convincente: na verdade, há poucos requerentes de asilo nos países que lideram os ataques às políticas de migração da UE.

 

Para identificar a raiz do descontentamento europeu, precisamos de examinar a expectativa de longa data de que a liderança na Europa deve partir sempre da parceria franco-alemã, que foi o principal motor da integração europeia há décadas. No período do pós-guerra, o presidente francês, Charles de Gaulle, trabalhou em estreita colaboração com o chanceler da Alemanha Ocidental, Konrad Adenauer, e isso continuou até à década de 1990, quando François Mitterrand e Helmut Kohl forjaram uma estreita amizade.

 

Por causa desta história, presumiu-se que se França e a Alemanha concordassem com algo, o resto da Europa deveria simplesmente ir atrás. Mas durante a crise da dívida da Zona Euro, que começou no final de 2009, o poder começou a afastar-se de França em direcção à Alemanha, e muitos na Europa começaram a considerar os dois países como elementos intimidatórios. Em pesquisas de opinião, franceses e alemães estão agora mais mal cotados nas avaliações de confiabilidade de outros europeus.

 

Merkel tem dividido opiniões. Antes de Setembro de 2015, muitos europeus acreditavam que ela era muito devota a um regime de austeridade que intensificara a crise do euro. Depois liderou a resposta humanitária da Europa à crise dos refugiados, ganhou elogios dos antigos críticos, mas a condenação de populistas e outros nacionalistas anti-UE, particularmente no Reino Unido, França e Europa Central. Agora, os populistas culpam-na não só pelos refugiados, mas também pelo terrorismo.

 

Da mesma forma, Macron não conquistou muita simpatia na Europa Central e Oriental. As suas críticas à directiva relativa ao destacamento de trabalhadores – que permite aos trabalhadores dessas regiões venderem os seus serviços mais baratos na Europa Ocidental e evitar pagar impostos sobre o rendimento – tornaram-no um vilão tão grande como Merkel em alguns países.

 

Durante a crise do euro, muitos políticos gregos, italianos e espanhóis viram França como um contrapeso para a Alemanha. Pensaram que França poderia moderar o impulso de austeridade da Alemanha e defender maiores investimentos do sector público. Mas isso foi uma ilusão e uma interpretação errónea do papel de França na parceria franco-alemã. De acordo com a divisão tradicional do trabalho, França fornece segurança e os meios para a Europa projectar poder no exterior; e a Alemanha supervisiona as finanças e a economia, ao nível interno.

 

Quando a Europa foi confrontada com um desafio de segurança depois da anexação da Crimeia pela Rússia em 2014, o motor franco-alemão funcionou de forma bastante eficiente. Mas os críticos da UE não gostam mais da ideia de políticas internacionais coordenadas do que gostaram da imposição de uma disciplina orçamental e monetária no meio de uma recessão.

 

Ainda assim, mesmo que a parceria franco-alemã tenha sido alvo de críticas, também ganhou destaque devido à decisão do Reino Unido de deixar a UE. Antes do referendo do Brexit de 2016, muitos na periferia da UE viram o Reino Unido como uma barreira para o dirigismo francês e o poder alemão. Agora, o Reino Unido está à mercê da Alemanha e da França enquanto negocia a sua saída.

 

As fotografias na imprensa da visita da primeira-ministra britânica, Theresa May, a Bruxelas, a 20 de Outubro foram reveladoras, porque recordaram o momento em que, numa cimeira da UE em Novembro de 2011, Merkel e o ex-presidente francês, Nicolas Sarkozy, reviraram os olhos para o primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi. Dentro de algumas semanas, Berlusconi estava fora do governo.

 

Olhando para o futuro, França e a Alemanha precisam urgentemente de desenvolver uma visão partilhada que transcenda as suas próprias políticas nacionais e abraçar uma verdadeira reforma ao nível da UE. Já existe algum acordo sobre a necessidade de coordenação da defesa e harmonização orçamental. Mas isso não é suficiente. França e a Alemanha ainda precisam de responder a muitas questões relacionadas com a centralização orçamental, a reestruturação da dívida soberana e outras questões fundamentais.

 

E, independentemente de França e a Alemanha concordarem com qualquer questão, todas as áreas políticas devem ser abertas a um processo de negociação que inclua todos os outros Estados-membros da UE. O resto da Europa precisa de sentir que tem um lugar à mesa. Isto poderia ser conseguido com listas de candidatos ao nível da UE para o Parlamento Europeu, como Macron propôs recentemente; ou com mecanismos formais para envolver regiões e cidades da Europa, para que o Conselho Europeu não seja reservado exclusivamente aos Estados-membros.

Em última análise, a UE ainda se pode desenvolver, mas apenas se se libertar das prioridades estreitas de França e da Alemanha. O que a Europa precisa agora não é de um núcleo duro, mas de um pensamento consistente.

 

Harold James é professor de História e Relações Internacionais na Universidade de Princeton e membro sénior no Center for International Governance Innovation.

 

Copyright: Project Syndicate, 2017.
www.project-syndicate.org
Tradução: Rita Faria

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