Luís Todo Bom
Luís Todo Bom 05 de abril de 2015 às 19:30

O processo de reindustrialização

O crescimento da economia portuguesa só será possível através do investimento em unidades produtivas de bens transaccionáveis, o que pressupõe o acompanhamento, pelo nosso país, do processo europeu de reindustrialização – um novo paradigma de produção industrial com incorporação de serviços de valor acrescentado, inovação e tecnologia – vertical e horizontal (TIC).

 

Neste contexto deve ser realçada a iniciativa da CIP - Confederação Empresarial de Portugal, de criação de um grupo de trabalho sobre a reindustrialização em Portugal, liderado pelo meu colega Luís Mira Amaral.

 

Este processo de reindustrialização, que será suportado financeiramente pelo Programa Portugal 2020, deve, em minha opinião, ter em consideração alguns aspectos conceptuais e operacionais, de modo a maximizar a sua eficiência no enquadramento europeu em que se irá integrar, nomeadamente:

 

• O programa deve ser dirigido às grandes e médias empresas nacionais (equivalentes a PME europeias). As pequenas empresas não têm estrutura para um processo autónomo, beneficiarão do incremento da subcontratação especializada;

 

• O sistema de incentivos deve diferenciar os "clusters" tradicionais, com inovação incremental, dos "clusters" tecnológicos, com inovação radical, majorando estes últimos;

 

• É essencial identificar, apoiar e consolidar as empresas-âncora de cada "cluster", tradicional ou tecnológico, onde se vão concentrar os processos de experimentação, protótipos e soluções disruptivas que possam vir a ser colocadas no mercado;

 

• O sistema de incentivos está desenhado para privilegiar as inovações no produto, em detrimento da inovação no processo e no posicionamento. Na situação actual do parque industrial português, considero que a inovação no processo é a área mais crítica de actuação;

 

• As infra-estruturas tecnológicas - incubadoras, centros tecnológicos e parques tecnológicos, devem ser redimensionadas, agrupadas em redes de inovação tecnológica e geridas profissionalmente. A manutenção dos "boys", indicados pelos presidentes de câmara, nestas unidades, terá um efeito devastador na sua credibilização;

 

• Este redimensionamento, reordenamento e reorganização das infra-estruturas tecnológicas permitirá, também, o aumento da eficiência da relação universidades - empresas, criando redes de conhecimento mais robustas, integradas e eficientes;

 

• A criação desta envolvente tecnológica global, com redes de inovação internacionais, facilitará a atracção de investimento estrangeiro de unidades com grande incorporação de tecnologia, podendo vir a criar-se, em Portugal, uma plataforma europeia de inovação;

 

• Finalmente, o sucesso de todo este processo irá depender da definição e adopção de métricas de performance adequadas, que permitam acompanhar a evolução do programa e a introdução das medidas correctivas necessárias.

 

É possível alterar o paradigma de pobreza e subdesenvolvimento industrial e tecnológico do nosso país.

 

Mas exige ética, estudo, competência e persistência, ou seja, trabalho sério e árduo.

 

Professor Associado Convidado do ISCTE

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comentários mais recentes
COLX 06.04.2015

Obrigado por este artigo - finalmente alguem (que nem é um compagnon de route politico) vem em simples frases dizer algumas verdades. Fala sobre a importancia de empresas ancora, contraria essa mistificação simplista que é dizer que a salvação esta nas PMEs exportadoras (são instrumentos a ter em conta mas a sua capacidade de alavancagem é muito limitada), chama ainda a atenção para a importancia da inovação tecnologica e o seu potencial para redefinir as regras do jogo e os modelos de negocio tradicionais.

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