Jim O'Neill
Jim O'Neill 01 de Dezembro de 2016 às 20:00

O que é que a libra nos está a dizer?

Se há mesmo a possibilidade de os mercados cambiais terem incorporado prémios de risco para o Reino Unido (e tudo indica que sim), os governantes terão de ter muito cuidado para não sugerir quaisquer outras alterações ao quadro de política económica do Reino Unido.

Sei, pelos meus 32 anos de experiência em finanças, que o estranho mundo dos mercados de câmbio pode, por vezes, desafiar a compreensão, e que tentar estimar o valor de equilíbrio da libra britânica pode ser um exercício de futilidade.

Na verdade, quando fecharam as urnas do referendo sobre o Brexit, a 23 de Junho, a libra britânica negociou inicialmente acima de uma taxa de 1,5 libras/1 dólar. Esta taxa de câmbio acabou por reflectir o agora ridículo pressuposto de que o "Remain" tinha vencido. Desde então, a libra caiu 20% em relação ao pico inicial, e depreciou de forma semelhante face ao euro.

Apesar destas discrepâncias, temos formas de medir razoavelmente bem o desempenho da libra pós-Brexit. Para começar, podemos comparar o seu valor actual com o seu valor médio durante o período da campanha do referendo, de Fevereiro a Junho. Vendo desta perspectiva, a libra desceu uns significativos 13% desde que os eleitores decidiram que o Reino Unido deveria deixar a União Europeia.

Além de olhar para a paridade do poder de compra, também temos modelos para estimar o equilíbrio da taxa de câmbio real (TCR), tais como identificar a taxa de câmbio com a qual um país pode alcançar uma balança de conta corrente sustentável ou a taxa que permitiria a uma economia atingir o pleno emprego.

Estes modelos incluem a taxa de câmbio de equilíbrio dinâmico do Goldman Sachs (GSDEER) e a taxa de câmbio de equilíbrio fundamental (FEER) do Peterson Institute for International Economics. A taxa de equilíbrio actual estimada da GSDEER é 1,44 libras/1,63 dólares e da FEER é de 0,88 libras/0,74 euros, o que implica que a libra esteja agora subvalorizada – entre 14% e 24% face ao dólar e pelo menos 20% face ao euro – em relação ao seu justo valor teórico.

Estes desalinhamentos poderiam ser parcialmente atribuíveis à sobrevalorização das outras moedas. Mas vamos supor que estas estimativas são, pelo menos, aproximadamente precisas e que a libra está agora amplamente subvalorizada em relação às moedas dos seus principais parceiros comerciais.

Uma interpretação optimista é que, se tudo correr como previsto, o declínio da libra implica uma melhor posição da balança de pagamentos no futuro e que a economia do Reino Unido passará por um reequilíbrio muito necessário. É verdade que os dados económicos divulgados desde o referendo sugerem uma tendência positiva no sector industrial e o Instituto Nacional de Pesquisas Económicas e Sociais previu recentemente que a balança de pagamentos do Reino Unido poderá atingir um pequeno excedente até 2019.

Claro que, se as coisas não correrem como previsto, então outra interpretação é que as actuais taxas de câmbio de equilíbrio irão diminuir ainda mais, reflectindo o pessimismo do mercado em relação às perspectivas da oferta da economia britânica e o futuro crescimento da produtividade. Muito dependerá da saída efectiva do Reino Unido da UE e, se isso acontecer mesmo, dos regimes comerciais e das políticas económicas do governo no pós-Brexit.

 

Outra interpretação complementar é que a debilidade da libra, apesar dos seus potenciais benefícios cíclicos, reflecte um prémio de risco no Reino Unido, devido ao difícil caminho para sair da UE e outras incertezas políticas.

Podemos estimar esse prémio de risco ajustando os modelos de equilíbrio da taxa de câmbio para considerar os desenvolvimentos económicos cíclicos "normais". Taxas de juro mais altas e inflação baixa e estável podem dar à moeda de um país uma vantagem sobre outras moedas. Portanto, se considerarmos o diferencial da taxa de juro real, podemos determinar um preço teórico no qual uma moeda deve ser negociada. Quando fazemos isso para a libra face ao dólar e ao euro, a taxa de câmbio teórica da libra é ainda substancialmente mais fraca do que a sua taxa spot real, o que sugere que o mercado teve, de facto, em conta um prémio de risco considerável.

Estas estimativas têm implicações ao nível das políticas públicas. Para começar, os legisladores britânicos devem reconhecer que uma libra em declínio é útil, mas não suficiente para melhorar a posição externa do Reino Unido e reequilibrar a sua economia.

Em segundo lugar, as oscilações diárias e semanais da libra reflectem uma suposição de mercado de que um Brexit "duro" (hard Brexit) – no qual o Reino Unido perde o acesso ao mercado único da UE a fim de restringir a imigração – afectará negativamente o crescimento da produtividade. Se o mercado estiver certo, então o crescimento futuro do Reino Unido irá depender ainda mais da capacidade dos governantes de impulsionarem o comércio pós-Brexit. Além disso, os governantes terão de desenvolver uma estratégia de imigração sofisticada para atrair trabalhadores altamente qualificados, mesmo que continuem a restringir a circulação de pessoas em geral.

 

Por fim, se há mesmo a possibilidade de os mercados cambiais terem incorporado prémios de risco para o Reino Unido (e tudo indica que sim), os governantes terão de ter muito cuidado para não sugerir quaisquer outras alterações ao quadro de política económica do Reino Unido. Quaisquer novas ameaças à independência do Banco da Inglaterra, em particular, podem levar o mercado a fazer o seu ajuste de contas.

 

Jim O'Neill, ex-presidente da Goldman Sachs Asset Management, é professor honorário de Economia na Universidade de Manchester e presidente da Review of Antimicrobial Resistance do governo britânico.

 

Copyright: Project Syndicate, 2016.
www.project-syndicate.org
Tradução: Rita Faria

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comentários mais recentes
Anónimo Há 5 dias

A libra diz-nos que nos devemos librar da periferia toxica,contagiante e sobretudo falsa.