Isabel Stilwell
Isabel Stilwell 03 de outubro de 2017 às 20:00

O que escondem os viciados em listas  

Os Evitadores de conflitos adoram listas de tarefas. Escondem nelas as missões impossíveis, aquelas que passam sempre para a lista seguinte. Até ao dia em que lhes explodem nas mãos.

Fazemos listas e mais listas. A maioria de nós, pelo menos. Ajuda-nos a organizar a cabeça, e parece que a ansiedade diminui quando somos capazes de enumerar tarefas a preto-e-branco numa folha ou em qualquer ecrã.

 

Por vezes, entusiasmamo-nos de tal forma que lá pomos tudo e mais alguma coisa, e não é invulgar que uma lista de outubro inclua presentes de Natal a comprar, já para não falar no nome de todos os amigos que tão culpados nos sentimos por não visitar (mas que mesmo assim não visitamos!).

 

Porque o facto é que o difícil não é fazer listas, mas cumpri-las. Ou melhor, cumprir as tarefas difíceis, as tais que transitam de papel em papel há uma eternidade de tempo. E se cada um de nós terá as suas razões internas para procrastinar, para muitos o bloqueio resulta da possibilidade de daí advir um confronto.

 

O bloqueio pode ser provocado por coisas tão díspares como a conta da água que é preciso contestar, ao "subalterno" a quem é necessário puxar as orelhas, passando pelo pedido de um colega para mediar uma guerra antiga, ou pode ser "apenas" uma reivindicação de salário ou a recusa de um convite que nos deixou em terras movediças. Não importa muito o tema concreto, o que está em causa nessas tarefas por resolver, é o conflito interno que nos provocam, o confronto entre quem somos e quem queremos ser, ou achamos que devíamos ser. Temos medo de que o nosso "não" possa magoar, ofender, ser injusto ou mal interpretado, mas como também somos incapazes de um "sim" que vá contra as nossas convicções, adiamos. Adiamos, esperando que um tsunami ou uma qualquer providência divina faça desaparecer o problema. Todas as manhãs acordamos com a esperança de que aquela "parcela" tenha desaparecido, por alta recreação da lista, deixando de nos assombrar.

 

Mas nunca desaparece. Pior, como bem sabemos e à medida que envelhecemos sabemos melhor ainda, a questão por resolver vai acabar por explodir mais dia, menos dia, provocando muito mais estragos. E nessa altura, de mãos levantadas à cabeça, vamos enfurecer-nos connosco próprios, furiosos por não termos tido a coragem, a ousadia e a sensatez de lidar com ela em tempo útil. Por termos permitido que o novelo se enrodilhasse, a ponto de não ser deslindável.  

 

Não admira que estes Evitadores sintam uma admiração (e uma inveja) imensa pelas pessoas que conseguem ser assertivas com boas maneiras. Por aqueles chefes, pais, mães, amigos que de forma direta, e simultaneamente bondosa, conseguem traçar limites, abrir parágrafos e colocar pontos finais.

 

Suponho que se consegue aprende a ser assim, perdendo o medo que o mundo desabe porque serenamente fomos capazes de dizer "não". Suponho que seja possível vencer uma cultura que encoraja os subterfúgios e o uso de uma linguagem evasiva que não diz nada, preferindo um discurso mais direto e depurado, que nunca se confunde com a ofensa, a humilhação e o insulto que está tão na moda.

 

Pensando bem, o alívio que sentimos quando finalmente somos capazes de resolver bem as missões impossíveis das nossas listas devia chegar para nos encorajar a tomarmos de frente todos os outros pendentes da nossa vida. Cá por mim, prometo que as minhas listas vão ser mais curtas e incisivas, sem esconder numa nuvem de poeira aquilo que, objetivamente, me importa resolver. Vamos lá ver em que é que isto dá.

 

Jornalista

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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