Le Hong Hiep
Le Hong Hiep 05 de dezembro de 2016 às 20:00

O que fará Trump no sudeste asiático

A retórica de campanha é uma coisa, governar é outra. Uma vez na Casa Branca, um Trump muito aconselhado pode perceber que manter alguma continuidade em termos de política externa dos EUA, em particular na região da Ásia e do Pacífico, está mais em linha com os interesses norte-americanos que a alternativa.

Com a sua vitória chocante nas eleições presidenciais norte-americanas, Donald Trump fez história – e muitas pessoas têm medo. De facto, a sua ascensão à presidência ameaça incitar uma revolução que abala as fundações não apenas da política norte-americana mas também da paz e da prosperidade mundial. Uma das regiões que possivelmente pode começar a sentir estes temores brevemente é o sudeste asiático.

 

Durante a sua campanha, Trump defendeu uma visão mundial de a "América primeiro", enfatizando que levaria em diante os compromissos internacionais dos Estados Unidos apenas quando lhe conviesse. Isto preocupou muitos dos aliados e parceiros dos Estados Unidos, incluindo países do sudeste asiático que temem vir a ser ignorados pelo país que fundamentalmente garante a estabilidade na sua vizinhança.

 

Isto representaria um reverso notável em relação aos últimos oito anos, durante os quais o presidente Barack Obama fez um esforço concertado para aprofundar os laços americanos com o sudeste asiático. Com a administração Obama, os Estados Unidos aderiram ao Tratado de Amizade e Cooperação no Sudeste Asiático e uniram-se à Cúpula do Leste Asiático (CLA).

 

Além disso, em 2013, os Estados Unidos tornaram-se o primeiro parceiro de diálogo da Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN na sigla em inglês) para estabelecer uma missão permanente na organização. No ano passado, o país forjou uma parceria estratégica com a ASEAN. E, no início deste ano, Obama foi o anfitrião da primeira cimeira EUA-ASEAN em solo americano. Barack Obama também trouxe quatro membros da ASEAN para a Parceria Trans-Pacífico, um acordo comercial mega-regional que promove as trocas económicas dos Estados Unidos com a região.

 

Obama ajudou também a cimentar laços bilaterais com a maioria dos países na região, tendo visitado nove de dez países durante os seus dois mandatos. Se não tivesse sido forçado a cancelar a visita ao Brunei, em 2013, teria sido um recorde.

 

Para ser claro, os laços norte-americanos com a Tailândia e com as Filipinas deterioraram-se um pouco durante o segundo mandato de Obama, devido às críticas do presidente norte-americano às violações das normas democráticas e dos direitos humanos nos dois países. Mas esse retrocesso tem sido mais do que compensado pelo progresso das relações norte-americanas com a Indonésia, Laos, Myanmar, Singapura e, em especial, com o Vietname.

 

Os esforços de Obama em relação ao sudeste asiático inserem-se numa estratégia mais ampla de "pivô", anunciada em 2011. Com o objectivo de ajudar os Estados Unidos a manterem a sua estratégica de primazia na região da Ásia-Pacífico, a política tem sido tranquilamente acolhida pela maioria dos actores regionais, uma vez que encaixa com o seu desejo de verificar quais as ambições hegemónicas da China na região. 

 

Tudo isto pode estar prestes a mudar. Trump provavelmente vai focar-se sobretudo em questões domésticas, à custa dos interesses estratégicos norte-americanos no estrangeiro. De facto, Trump pode retroceder no seu compromisso estratégico com a ASEAN e com os seus membros, provocando uma deterioração do relacionamento com os Estados Unidos. Se Trump falhar em demonstrar nos importantes encontros regionais, como os East Asian Summits, essa deterioração vai tornar-se ainda mais profunda.

 

A atitude de indiferença de Trump vai também prejudicar as relações bilaterais. Para ser claro, a Malásia, Tailândia e Filipinas podem preferir um presidente norte-americano que não tenha problemas em criticar os abusos de direitos humanos dos seus governos, a corrupção ou as suas manobras políticas. Mas relações norte-americanas com outros países da região podem estagnar, se não mesmo deteriorarem-se, na medida em que a confiança na vontade de Trump em seguir com os compromissos norte-americanos colapsa.

 

Os laços económicos provavelmente também vão sofrer. Perante a liderança de Trump, que revelou ter fortes tendências proteccionistas, a Parceria Trans-Pacífico vai ficar moribunda na melhor das hipóteses. A iniciativa US-ASEAN Connect, que Obama propôs numa cimeira no início deste ano e que tem como objectivo impulsionar o compromisso económico americano com os grupos regionais, pode também não chegar a lugar a nenhum.

 

Não é apenas o sudeste asiático que vai sofrer com a indiferença de Trump. A Austrália, a Índia e o Japão – importantes aliados dos Estados Unidos e parceiros ao nível da segurança na região da Ásia Pacífico – podem também achar difícil ligarem-se a Trump, o que prejudica ainda mais a crença de que os Estados Unidos lideram a arquitectura de segurança regional. A estratégia de equilíbrio de Obama em relação à Ásia percorreu um longo caminho para avançar e pode entrar agora em reversão, o que será um duro golpe tanto para a Ásia como para os EUA.

 

Há um país asiático que pode receber bem o desfecho eleitoral: a China. Apesar de ter criticado muito a China por, supostamente, roubar os empregos americanos – e culpou-a mesmo pela "farsa" das mudanças climáticas – Trump pode ter uma posição mais branda no que diz respeito à estratégia de expansão na região, em especial no Mar Sul da China, do que Obama teve.

 

Num cenário exagerado mas não improvável, Trump pode alcançar um acordo com a China sobre as suas reivindicações territoriais, negligenciando os interesses dos aliados dos Estados Unidos, desde o Japão às Filipinas. Tal movimentação seria particularmente devastadora para a percepção da América de Trump no sudeste asiático.

 

A boa notícia é que este desfecho não está garantido. A retórica de campanha é uma coisa, governar é outra. Uma vez na Casa Branca, um Trump muito aconselhado pode perceber que manter alguma continuidade em termos de política externa dos EUA, em particular na região da Ásia e do Pacífico, está mais em linha com os interesses norte-americanos que a alternativa. Quanto mais não seja, Trump pode resistir à ideia de a China ganhar primazia estratégica na região.

 

Para Trump, que fez a sua carreira no imobiliário, talvez a melhor forma de olhar para isto é em termos empresariais. Os Estados Unidos iriam desperdiçar todo o investimento significativo que o seu antecessor alcançou no sudeste asiático.

Le Hong Hiep é membro do  ISEAS – Yusof Ishak Institute, em Singapura, e autor do livro Living Next to the Giant: The Political Economy of Vietnam’s Relations with China under Doi Moi.

 

Direitos de Autor: Project Syndicate, 2016.
www.project-syndicate.org
Tradução: Ana Laranjeiro

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