Isabel Stilwell
Isabel Stilwell 07 de Novembro de 2016 às 20:10

O que fizemos ao tempo

Porque andamos a correr a contra relógio se, em 1930, John Keynes profetizou que os netos já só trabalhariam três horas por dia, e era se lhes apetecesse?

Há alturas em que nos sentimos como ratinhos a correr naquelas rodas que os donos compram para as gaiolas, cada vez mais depressa, cheios de medo do que pode acontecer se decidirem parar. Ratinhos acelerados, incapazes sequer de apreciar os momentos em que não precisam de andar a contrarrelógio, tomados por uma ansiedade que lhes diz que é pecado ficar de braços cruzados quando está tudo por fazer.

 

E se o sentimento é comum a tantos de nós, tenho vindo a suspeitar de que aqueles que trabalham por conta própria, sem a certeza de um ordenado fixo ao fim do mês, são ainda mais suscetíveis de ser apanhados neste vórtice. Mesmo quando, racionalmente, lhe percebem o absurdo.

 

E foi precisamente por andar em busca de confirmação para a minha tese, que tropecei num artigo do Economist, que prometia explicar porque andamos todos tão frenéticos ("Why is everyone so busy?"). Eureka!, está lá tudo. E tudo ao contrário, recordam, do que o famoso economista John Keynes profetizou em 1930, quando disse que os seus netos já só trabalhariam três horas por dia, e era se lhes apetecesse. Perante a mecanização crescente da mão de obra, acreditava que só poderia estar para chegar um mundo com mais tempo livre. Mas então o que é que aconteceu para que os bisnetos do senhor Keynes não parem de se queixar de que não têm tempo para nada? O problema é de perceção, explica o Economist, porque na realidade livrámo-nos de muito do que nos ocupava o dia. Os americanos trabalham menos 12 horas por semana (incluindo já transportes e intervalos para o café) do que nos anos 40, e as mulheres, por exemplo, desde aí gastam menos 11 horas por semana em tarefas domésticas. Simplesmente, insatisfeitos com isso, tratamos de reocupar o tempo livre com... mais trabalho.

 

A culpa parece ser do relógio de ponto, introduzido nas fábricas no século XVIII, e que passou a estabelecer uma correlação direta entre tempo e dinheiro. "Quando a hora é financeiramente contabilizada, as pessoas ficam mais aflitas com o tempo que perdem, poupam, ou ganham", explicam os especialistas. O que significa que, contraintuitivamente, mal a economia prospera, subindo o preço da hora de trabalho, mais valioso se torna o tempo, crescendo também a sensação de que escasseia. Afinal, todos os minutos contam, quando existe a oportunidade de os pôr a render.

 

Sendo assim compreensivelmente os mais afetados por esse sentimento de urgência são aqueles que recebem à hora, e têm uma noção muito exata do que podem lucrar com ela. Pela mesma razão, são igualmente os que maior dificuldade têm em gozar o tempo livre.

 

O pobre Keynes também não podia adivinhar que esta relação com o tempo ia afetar sobretudo aqueles que têm mais habilitações e mais dinheiro. Porque, constata o Economist, é este o paradoxo do século XXI: quanto mais rico, menos tempo para gastar. Não só é maior a pressão para fazer um "bom" uso do tempo, como perante mais escolhas - que a riqueza permite - perde-se mais tempo.

 

Com uma agravante: a rapidez na realização dos desejos, em lugar de nos deixar felizes, cria impaciência, resultado da impressão de que o tempo perdido podia ser mais bem despendido. Se dúvidas houvesse, o Google, tirava-as: quando visitamos um site 250 milissegundos mais lento do que o do concorrente, não voltamos lá. Ainda bem que Keynes morreu iludido. Resta perguntar daqui a outros tantos anos, cheios de aparelhos para poupar tempo nos bolsos, quanto mais loucos estaremos?

 

PS - Se quiser "perder tempo" a ler mais vá a:http://www.economist.com/news/christmas-specials/21636612-time-poverty-problem-partly-perception-and-partly-distribution-why

 

Jornalista

 

Este artigo está em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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Frade Há 2 dias

Porque pior que uma doença é não ter dinheiro, assim se pensa. E melhor, morre-se convencido disso.