Bruno Faria Lopes
Bruno Faria Lopes 16 de novembro de 2017 às 20:40

O que liga o aviso de Centeno à queda da Altice

Os banqueiros centrais são hábeis no jogo das palavras. É com elas que tentam pastorear os investidores e evitar que estes se assustem com alterações importantes na política monetária e reajam em pânico.

Como estamos num desses momentos-chave, de reversão de uma política de estímulos sem precedentes, temos visto os banqueiros a jogar com mestria. O Banco Central Europeu confirmou em Outubro um recuo gradual dos estímulos e o Banco de Inglaterra subiu as taxas de juro pela primeira vez numa década, mas as palavras dos seus presidentes foram tão de "pomba" - jargão para descrever quem não vê necessidade de apertar a política monetária para combater a inflação - que os mercados reagiram com quedas nos juros das obrigações, o oposto do que seria de esperar. 

 

Mas há limites ao que as palavras dos banqueiros centrais podem fazer, sobretudo quando olhamos para o longo prazo. Como lembra bem John Authers, colunista do Financial Times, uma subida de juros é uma subida de juros e não há palavras que mudem isso. Os banqueiros centrais estão a retirar o excesso de liquidez no sistema financeiro global e terá de haver uma reacção do mercado. O receio dos decisores - e o uso cuidadoso das palavras é o reflexo desse receio - é sobre se essa reacção será ordeira ou turbulenta. Certeza, só uma: as taxas de juro em mínimos recorde estão perto do fim.

 

Foi Vítor Gaspar que disse uma vez (aos deputados do PSD e do CDS) que "os mercados são como os ursos, passam metade do tempo a dormir". Enquanto hibernam, a vigilância sobre os devedores é mínima. Mas quando acordam, como começamos a ver, a situação pode mudar muito depressa. Nessa altura, saltam à vista os riscos particulares de cada devedor.

 

É à luz deste contexto que podemos enquadrar, por exemplo, o que se está a passar com a dona da PT. Em cinco anos, Patrick Drahi amalgamou um grupo com recurso a dívida. Vale a pena reter isto: em 2012, a dívida da Altice era inferior a dois mil milhões de euros; hoje, é de 51 mil milhões. O modelo só funciona se os negócios comprados libertarem dinheiro em quantidade suficiente para reduzir a dívida. Há sinais de que isso não está a acontecer e o mercado, mais desperto para estes riscos específicos, está (tardiamente) a castigar a Altice. E Drahi assume agora (tardiamente) que a sua prioridade é reduzir a dívida. 

 

Um país não é uma empresa, mas o mesmo contexto ajuda também a enquadrar o aviso do ministro das Finanças esta semana. Mário Centeno não podia ter sido mais claro: "O ciclo de taxas de juro baixas vai ser alterado e não podemos chegar a esse momento sem ter a dívida pública a cair." A dívida pública portuguesa tem navegado muito bem o início da retirada dos estímulos do BCE e o Governo prevê que o rácio caia para 123,5% do PIB no próximo ano. Mas as fragilidades estruturais da economia persistem e o fardo da dívida continua pesado. A dívida, em particular, é um problema: uma subida de um ponto nas taxas de juro de curto e médio prazo somaria sete pontos do PIB ao rácio da dívida em dez anos, segundo cálculos da Comissão Europeia citados no Negócios.

 

Há mais forças em jogo na turbulência à volta da Altice (há um ataque claro à cotação) e do aviso de Centeno (as reivindicações do PCP e Bloco, incluindo os professores). Mas o aumento esperado nos custos de financiamento - que, é bom notar, nasce da recuperação económica - e na vigilância do mercado é um risco a ter em conta no próximo ano e em 2019. Um risco que, no caso da política, tem potencial para mexer nos equilíbrios entre o PS e os seus parceiros. 

 

Jornalista da revista Sábado

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