Inês Montalvão Cunha
Inês Montalvão Cunha 13 de agosto de 2017 às 19:57

O que o Brasil deve temer agora?

Com a expectativa de que o processo Lava Jato seja capaz de limpar a política brasileira, o fator preocupante não reside nos protagonistas que cairão devido a este, mas sim nos que ficarão em cena para o futuro do Brasil.

A política brasileira continua envolta num dos maiores, senão o maior, escândalos políticos do mundo: o processo Lava Jato. Depois do famoso "impeachment" de Dilma, visto como uma manobra premeditada para travar as investigações do processo, e um mês depois de assistirmos à condenação por corrupção passiva e lavagem de dinheiro de Lula, o engodo em que a política brasileira se encontra parece saído de uma novela brasileira da Globo em que é difícil perceber quem não está, de facto, envolvido no Lava Jato.

 

Na semana passada, o protagonista foi o atual Presidente Michel Temer que, através da aprovação do Congresso, conseguiu impedir a investigação de corrupção à qual estava a ser sujeito. Uma das formas de "angariar" votos para este questionável "consentimento" do Congresso foi propor a exploração de 350 mil hectares de área protegida da Amazónia, uma extensão territorial equivalente à do distrito de Leiria. Sendo a sua credibilidade política cada vez menor e com a possibilidade de novas acusações, reside a dúvida se Temer ainda tem o capital político necessário para fazer aprovar as reformas estruturais que propôs.

 

Ainda assim, este não é o Brasil de 2015: a inflação, que já diminuiu três vezes este ano, encontra-se no nível mais baixo de sempre; o Banco Central ainda pode baixar as taxas de juro e o investimento direto estrangeiro está mais resiliente a choques políticos. Todavia, apesar de serem vários os investidores que não querem perder a oportunidade de fazer parte de um potencial "boom" da economia, é urgente a implementação de reformas estruturais. A reforma das pensões, que visa aumentar a idade de acesso à aposentação, atualmente 50 anos, é essencial para balançar o saldo fiscal numa economia que registou o seu pior défice orçamental em junho passado. Além disso, embora a dívida brasileira em relação ao PIB seja de apenas 70%, quando comparada com a de Portugal, 130%, ou a dos Estados Unidos, 105%, o crescimento de 25% nos últimos dois anos é inquietante, esperando-se que esta continue a crescer - isto se a estrutura financeira do país não se alterar. Ao contrário de uma novela da Globo, é difícil prever um final feliz para a economia brasileira nos próximos meses.

 

Contudo, o alarmante não é a falta de popularidade de Temer em conseguir aprovar as reformas essenciais para o tão desejado "boom" da economia; o alarmante é "quando" é que estas serão aprovadas: o candidato à Presidência em 2018, Jair Bolsonaro, pouco apologista destas mudanças vitais, é não só conhecido como o "Trump brasileiro" devido às suas declarações homofóbicas, mas também apoia abertamente a tortura por parte das forças policiais e olha positivamente para as mais de duas décadas de ditadura militar no Brasil. Assim como a violência e a instabilidade social do país têm aumentado, a popularidade de Bolsonaro também, partilhando de momento a liderança das sondagens com Lula. Com a expectativa de que o processo Lava Jato seja capaz de limpar a política brasileira, o fator preocupante não reside nos protagonistas que cairão devido a este, mas sim nos que ficarão em cena para o futuro do Brasil.

 

Artigo em conformidade com o novo Acordo Ortográfico

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