O que pode correr mal na América?

Se a Fed for bem-sucedida, o declínio nos preços dos activos pode ser diminuído. Mas o perigo de quedas acentuadas que precipitem uma recessão económica não deve ser ignorado.
Ainda que a economia dos Estados Unidos esteja em boa forma - com praticamente pleno emprego e uma taxa de inflação próxima de 2% - um mundo de incerteza faz com que valha a pena considerar o que poderá correr mal no próximo ano. Afinal, se a economia dos EUA enfrentar problemas, haverá consequências adversas para a Europa, Japão e muitos outros países.
 
Os problemas económicos poderão, naturalmente, ter origem em eventos políticos internacionais. A Rússia tem agido de forma perigosa no leste e centro da Europa. As reivindicações territoriais da China nos mares do leste e sul do país, e as suas políticas no leste da Ásia, em geral, estão a alimentar a incerteza na região. Eventos em Itália poderão precipitar uma crise na Zona Euro.
 
Mas dentro dos Estados Unidos, o maior risco é um declínio acentuado nos preços dos activos, que colocaria pressão sobre as famílias e as empresas, levando a um colapso da procura agregada. Não prevejo que isso vá acontecer. Mas as condições estão a tornar-se mais perigosas à medida que os preços dos activos sobem, afastando-se do padrão histórico.
 
Os preços das acções, medidos pelo rácio cotação/lucro do S&P500, estão agora quase 60% acima da média histórica. O preço dos títulos do Tesouro a 30 anos é tão elevado que implica uma ‘yield’ de cerca de 2,3%; dadas as expectativas actuais de inflação, o preço devia ser cerca de duas vezes maior. Os preços dos imóveis comerciais aumentaram a um ritmo anual de 10% nos últimos cinco anos.
 
Estes preços inflacionados dos activos reflectem a política monetária excepcionalmente acomodatícia que tem prevalecido por quase uma década. Nesse ambiente de taxas de juro ultra baixas, os investidores, em busca de rentabilidade, têm impulsionado os preços das acções e outros activos de investimento. O aumento resultante da riqueza das famílias contribuiu para a recuperação económica; mas os activos sobrevalorizados estão a promover um ambiente cada vez mais arriscado.
 
Para entender o nível de risco, consideremos isto: as famílias dos EUA possuem agora 21 biliões de dólares em acções, pelo que uma queda de 35% no preço das acções em relação à média histórica implicaria uma perda de mais de 7,5 biliões de dólares. Os fundos de pensões e outros investidores sofreriam perdas adicionais. O retorno da rendibilidade das obrigações a longo prazo ao seu nível histórico implicaria uma perda de cerca de 30% para os investidores em obrigações a 30 anos e perdas proporcionalmente menores para os investidores em obrigações de maturidades mais curtas. Como os investimentos imobiliários comerciais são geralmente muito alavancados, mesmo declínios relativamente baixos nos preços podem causar grandes perdas para os investidores.
 
A queda da riqueza das famílias reduziria os gastos e provocaria uma descida do PIB. Regra geral, cada descida de 100 dólares na riqueza provoca uma queda de 4 dólares nos gastos das famílias. O retorno dos preços dos activos para níveis históricos poderia, portanto, implicar um declínio de 400 mil milhões de dólares nos gastos dos consumidores - equivalente a cerca de 2,5% do PIB - o que iniciaria um processo de redução de rendimentos e despesas que se reforçaria mutuamente.

Como os investidores institucionais respondem às diferenças internacionais nos preços dos activos e rendibilidades dos activos, as grandes quedas nos preços dos activos dos EUA seriam seguidas por quedas semelhantes nos preços dos activos em outros países desenvolvidos. Essas descidas de preços reduziriam os rendimentos e gastos noutros países, o que se traduziria na redução das importações e exportações a nível global.
 
Devo enfatizar que este processo de queda dos preços dos activos e a resultante contracção da actividade económica são um risco, não uma previsão. É possível que os preços dos activos baixem gradualmente, implicando uma desaceleração e não um colapso dos gastos e da actividade económica.
 
Mas o medo de desencadear um declínio rápido nos preços dos activos é uma das principais razões pelas quais a Reserva Federal dos EUA está relutante em subir os juros mais rapidamente. A Fed aumentou os juros em apenas 0,25% em Dezembro de 2015 e é provável que suba apenas mais 25 pontos-base em Dezembro de 2016. Mas isso ainda vai deixar a taxa de referência em menos de 1%. Com a inflação próxima de 2%, a taxa de referência real ainda seria negativa.
 
Os mercados estão a observar a Fed para perceber se e quando começará o processo de normalização dos juros. A experiência histórica mostra que a normalização elevaria as taxas de juros de longo prazo em cerca de dois pontos percentuais, precipitando correcções substanciais nos preços dos títulos, acções e imóveis comerciais. A Fed está, portanto, a tentar baixar as expectativas sobre os níveis futuros dos juros, sugerindo que as mudanças nas tendências demográficas e de produtividade implicam taxas reais mais baixas no futuro.
 
Se a Fed for bem-sucedida, o declínio nos preços dos activos pode ser diminuído. Mas o perigo de quedas acentuadas que precipitem uma recessão económica não deve ser ignorado.
 
Martin Feldstein é professor de Economia na Universidade de Harvard e presidente emérito do Departamento Nacional de Investigação Económica, e presidiu ao Conselho de Assessores Económicos do Presidente Ronald Reagan de 1982 a 1984.
 
Copyright: Project Syndicate, 2016.
www.project-syndicate.org
Tradução: Rita Faria
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